Blog do Desemprego Zero

Um país bem comportado

Posted by Beatriz Diniz em 5 maio, 2008

“Brasil passa de BB+ para BBB-, a agência de classificação de riscos Standard & Poor’s (S&P), elevou o País a categoria de totalmente confiável aos olhos dos credores. O fato é inédito e equipara o País a Índia e ao Cazaquistão. O principal motivo da ascensão à lista dos bem-comportados foi a maturidade das instituições brasileiras, ao diminuir os riscos fiscais e externos e melhorar a perspectiva de crescimento.”

*Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Carta Capital

Por: Márcia Pinheiro

Três fatores determinaram o vaivém do humor econômico brasileiro a partir de segunda-feira 28 de abril de 2008: o resultado negativo das contas externas, a decisão do Federal Reserve de reduzir o juro e o carimbo de grau de investimento dado ao Brasil pela agência de classificação de riscos Standard & Poor’s (S&P). O definitivo e que levou a Bolsa de Valores de São Paulo à euforia – alta de 6,3%, a maior desde 2002 – foi a decisão da S&P de elevar o País à categoria de totalmente confiável aos olhos dos credores. Na sopa de letrinhas, saímos de BB+ para BBB-.

O fato é inédito e equipara o País à Índia e ao Cazaquistão. Mas está ainda abaixo, por exemplo, da Rússia, Polônia, Malásia, China e do México, só para citar algumas nações emergentes. O principal motivo da ascensão à lista dos bem-comportados, segundo Lisa Schineller, diretora de ratings soberanos da agência, foi “a maturidade das instituições brasileiras, ao diminuir os riscos fiscais e externos e melhorar a perspectiva de crescimento”. Em síntese, pesou fundamentalmente o fato de as reservas brasileiras estarem na casa dos 200 bilhões de dólares, o compromisso do Ministério da Fazenda de cumprir as metas de superávit primário e, finalmente, o Produto Interno Bruto (PIB) ter deixado de patinar. Tudo, evidentemente, vinculado aos preços das commodities em disparada, que fizeram a alegria de exportadores de matérias-primas.

O grau de investimento implica maior entrada de recursos externos, o que, em tese, libera o Banco Central de praticar uma política monetária ultra-ortodoxa. Isso porque, com a chancela de bons pagadores, as empresas e o Tesouro Nacional poderão captar recursos a juro mais baixo no exterior, o risco País tende a cair e os investidores estrangeiros conservadores terão o aval, por seus estatutos, de aplicar recursos aqui – principalmente os fundos de pensão, que visam o longo prazo.

Não há necessidade de juro elevado para incentivar a entrada de dólares e conter a inflação. Tanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) como a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) alertaram para a incoerência de o País ter o juro real mais elevado do mundo, se até os estrangeiros estão confiantes nos brazucas. De acordo com o diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Sicsú (clique aqui para ler a entrevista), o regime de altas taxas de juro e de câmbio valorizado está levando a economia para outra direção. “A solidez macroeconômica do setor externo se reduz e caminhamos no sentido de fazer do Brasil um País que será apenas grande produtor de produtos básicos e de manufaturados de baixo valor agregado”, afirma. Segundo ele, “não há crise no front e o maior reconhecimento é o recebimento do grau de investimento”.

A boa notícia foi obviamente comemorada com euforia pelo governo e é um indiscutível trunfo político. “O País vive um momento mágico”, disse o presidente Lula. Para o ministro Guido Mantega, entramos na lista de “países sérios”, resultado da combinação de uma política monetária sólida, inflação baixa e crescimento sustentável. 

Seu desafeto, o presidente do BC, Henrique Meirelles, embarcou na lista dos pais do grau de investimento, ao salientar que os recursos não especulativos agora têm um novo abrigo. Todas as declarações fazem sentido, sobretudo porque o mundo vive um momento de extrema cautela e desconfiança dos ativos financeiros, em função da crise americana.

O mercado financeiro entrou em êxtase com a notícia. Além da espetacular alta da Bolsa, o dólar despencou 2,4%, para 1,664 real, e os contratos de juro futuro mostraram forte queda nas projeções. Na avaliação de Walter Machado de Barros, presidente do conselho de administração do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef), o grau de investimento abre portas para que o BC reveja a postura de política monetária adotada na última reunião do Copom.

“Os recursos de investidores institucionais, como seguradoras, fundos de pensão e as reservas de bancos centrais, certamente vão aportar em forma de aplicações de longo prazo também para o setor produtivo”, afirma. Na visão dele, é exatamente o aumento da capacidade instalada que reprime naturalmente as pressões inflacionárias, pois a cadeia produtiva passa a ter meios de atender ao crescimento da demanda, sem a necessidade de elevações na taxa Selic. 

A consultoria Rosenberg & Associados resumiu bem o espírito dos investidores. “Hoje, o Brasil vira mais uma página de sua história. Embora persistam ainda muitos problemas a ser resolvidos, o País alcança uma posição de destaque. As demais agências de classificação de riscos não devem demorar a avalizar a capacidade brasileira de honrar seus compromissos externos. Como comprovado pela reação dos mercados após a notícia, já começaram a ser sentidos os efeitos da notícia. Daqui por diante, a entrada de dólares deve continuar, intensificando a trajetória declinante do dólar.”

Exatamente nesse ponto mora o perigo. Toda a festa encobriu a formação de um enrosco para o setor exportador, que pena com a perda de competitividade do câmbio. Os dados são eloqüentes. O início da semana não havia sido tão promissor. Na segunda-feira 28, o Banco Central divulgou que as contas externas tiveram o pior resultado de março da série histórica da instituição. Houve déficit de 4,429 bilhões de dólares no mês, com acumulado de 10,7 bilhões de dólares no primeiro trimestre. 

A responsabilidade é inequivocamente do câmbio valorizado, que elevou as remessas de lucros e dividendos das empresas para 8,662 bilhões de dólares de janeiro a março. Além disso, segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o menor saldo comercial foi responsável por 53,5% da piora das transações correntes. Recuou de 8,72 bilhões de dólares nos três primeiros meses de 2007 para 2,83 bilhões de dólares no trimestre inicial deste ano.

A conjunção da deterioração das contas externas com a iniciativa da S&P relaciona-se diretamente à terceira notícia relevante da semana. Na quarta-feira 30, o Federal Reserve novamente reduziu a taxa de juro americana. Desta vez, em 0,25 ponto porcentual, para 2%. No comunicado do BC americano, há uma evidente preocupação com a fraca atividade econômica e as persistentes pressões inflacionárias, sobretudo causadas pelos preços das commodities e do petróleo. A constatação óbvia é que o diferencial entre o juro americano e o brasileiro ampliou-se consideravelmente. Mais um motivo para o ingresso de recursos estrangeiros. Pode ser que o Fed tenha terminado o ciclo de baixa do custo do dinheiro, mas nada indica que vá retomar as altas a curto prazo.

Para o Brasil, fica o desafio de lidar com os dólares que vão intensificar os investimentos nos ativos financeiros. Custa caro ter uma dívida interna de 1,2 trilhão de reais, com 35% dos títulos corrigidos pela taxa básica de juro. No mais, fica uma pergunta: qual a credibilidade de agências de classificação de riscos hoje, as mesmas que deram nota máxima aos títulos podres hipotecários americanos?

 

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