Blog do Desemprego Zero

A inevitável disputa entre Brasil e Argentina

Posted by Beatriz Diniz em 6 maio, 2008

Um estudo realizado aponta que há muita similaridade entre as indústrias brasileiras com as argentinas. No entanto, o “número de grandes empresas brasileiras que inovam e diferenciam produtos é maior que o de empresas argentinas, mas, em termos percentuais, 18% das firmas da Argentina investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D), ante apenas 7% no Brasil”.

Pesquisadores concluem que a “Argentina deveria aumentar os seus investimentos em P&D, enquanto o Brasil deveria dar prioridade ao aumento do número de pesquisadores em todos os setores do seu parque industrial”.

Por Katia Alves

Por Sérgio Garschagen

Publicado no Desafios do Desenvolvimento

 Há mais similaridades produtivas do que diferenças entre os parques industriais do Brasil e da Argentina. Essas similaridades é que tornam as duas economias competidoras no mercado internacional, segundo conclusão do pesquisador Bruno César Araújo, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea).

Ele é um dos 21 pesquisadores – 13 brasileiros e oito argentinos – que analisaram as inovações tecnológicas e o potencial exportador dos dois países. Uma das observações dos pesquisadores é a de que há no Brasil muitas empresas de médio porte que têm todas as condições para exportar, mas esbarram no fato de os argentinos já terem conquistado o nicho de mercado que elas almejam. “A recíproca também é verdadeira. Os argentinos encontram dificuldades de exportar porque empresas do Brasil já dominam o mercado”, diz.

As coincidências têm bases históricas. Os dois países, que basicamente exportavam produtos agrícolas até os anos 1930, investiram em políticas de substituição de importações no pós-guerra, praticamente nos mesmos setores  metalurgia, mineração e bens de capital -, sofreram restrições macroeconômicas nos anos 1980 e abriram as economias na década de 1990.

O trabalho dos 21 pesquisadores resultou no livro “Technological Innovation in Brazilian and Argentine Firms”, editado pelo Ipea e ainda inédito. A obra é parte de projeto desenvolvido pelo Ipea para produzir estudos que tenham como foco as estratégias de negócios entre os dois países, com o objetivo de facilitar a formatação de políticas públicas.

FOCO  Segundo os pesquisadores do Ipea João Alberto de Negri e Lenita Turchi, que coordenaram o trabalho, diversos testes estatísticos, com diferentes indicadores e critérios, foram utilizados, adotando-se um esquema de classificação que foi considerado como o mais adequado: empresas dos dois países que inovam e diferenciam os seus produtos; empresas que exportam mas não inovam e nem diferenciam os seus bens; e, finalmente, empresas que nem diferenciam e têm baixa produtividade.

O número de grandes empresas brasileiras que inovam e diferenciam produtos é maior que o de empresas argentinas, segundo a pesquisa, mas, em termos percentuais, 18% das firmas da Argentina investem em pesquisa e desenvolvimento (P&D), ante apenas 7% no Brasil. Apesar disso, os investimentos das empresas brasileiras somaram US$ 2 bilhões no ano 2000, dez vezes acima dos US$ 186 milhões investidos por parte das empresas argentinas.

A assessora do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) Fernanda De Negri, em tese de doutorado que acaba de ser defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre as relações entre o Brasil e a Argentina, analisou os investimentos dos dois países em pesquisa e desenvolvimento e concluiu que o Brasil compromete uma parcela superior do faturamento da sua indústria em pesquisa quando comparado com a Argentina.

Para barrar o crescimento das exportações do Brasil, a Argentina provocou a criação do Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), destinado a impedir que setores econômicos do país fossem imobilizados pelo maior poder do outro lado. O sistema, que possibilita a adoção de salvaguardas, impediu que eletrodomésticos, sapatos e têxteis brasileiros ampliassem demais sua participação no mercado vizinho.

As dificuldades comerciais entre Brasil e Argentina acabam por diminuir a importância do Mercosul como mecanismo de incentivo ao comércio entre os países do subcontinente americano. Não é segredo que os dois países têm peso decisivo na região: economicamente falando, somam 36,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e 41% das populações dos países da América do Sul.

Reação no mesmo sentido decorreu dos investimentos brasileiros na indústria argentina, depois da desvalorização do peso. Em 2002, a AmBev assumiu a cervejaria Quilmes, a maior do país, a Petrobras adquiriu a empresa Perez Companc e a Construtora Camargo Correa comprou a empresa argentina Loma Negra. Setores industriais argentinos argumentam que a política de crédito brasileira favorece a ampliação das companhias além-fronteiras.

COMPARAÇÕES  O pesquisador Fernando Peirano, do Centro de Estudios sobre Ciencia, Desarrollo y Educación Superior (Redes), da Argentina, analisou o ganho financeiro que as inovações tecnológicas embutem no retorno financeiro das indústrias.Ele selecionou oito países – Alemanha, Itália, Brasil, Espanha, Holanda, Bélgica, Portugal e Argentina – e comparou os respectivos investimentos em inovação, utilizando bases de dados do Ipea, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de instituições semelhantes da Argentina e da União Européia.

A Argentina ficou em última posição no que diz respeito ao retorno financeiro industrial. O Brasil ocupou surpreendentemente o terceiro lugar entre as nações selecionadas, embora ele ressalve que, se analisados outros parâmetros da composição dos gastos desses países em P&D, a posição do Brasil poderia vir a ser reconsiderada.

Uma das explicações para essa situação única do Brasil entre as nações em desenvolvimento deve-se ao fato de o país não ter perseguido uma integração da sua economia à dinâmica do mercado internacional, mas ter dirigido a sua política industrial ao mercado interno, o que acarretou uma das maiores diversificações da indústria entre economias latino-americanas, incluindo Argentina e México.

O Brasil, de modo atípico, se diferenciou em relação às demais economias em desenvolvimento, que se caracterizam pelo fornecimento de mão-de-obra mais barata e de recursos naturais. No caso brasileiro, isso em parte é real – os salários são mais baixos e as matérias-primas são abundantes -, mas os investimentos em pesquisa e desenvolvimento são maiores. Embora não tenha alcançado o padrão econômico dos países menos desenvolvidos da Europa, o país se afasta bastante em relação à maioria dos vizinhos da América Latina.

OPORTUNIDADE  O professor Wilson Suzigan, da Unicamp, o coordenador do livro, João Alberto De Negri, e o pesquisador do Ipea Alexandre Messa Silva, num texto que ocupa o capítulo 1 do trabalho, fazem referência a que, no caso do Brasil, essa diversificação industrial, decorrente do grande mercado interno, permitiu o surgimento de empresas de médio porte exportadoras de produtos com pequena e média agregação tecnológica. Essas empresas já geram 25% da renda industrial nacional.

Segundo os pesquisadores, após a política de substituição das importações e a partir dos anos 1970, houve uma oportunidade de transição para a indústria brasileira, que poderia ter corrigido o seu curso e reduzido o protecionismo, agregando novas tecnologias e se integrando à dinâmica do mercado, mas a oportunidade não foi aproveitada. Em decorrência da crise macroeconômica e da instabilidade decorrente, o setor estagnou no decorrer da década de 1980, interrompendo o processo de industrialização.

A abertura da economia nos anos 1990, especialmente a liberalização do comércio, colocou a indústria nacional frente a dois desafios: competir no mercado doméstico e também no internacional ao mesmo tempo. Em um cenário de economia adversa, a única resposta possível foi reduzir custos e aumentar a eficiência.  

O pesquisador João De Negri comprova esse fato com dados: o Brasil possuía, em 2000, cerca de 72 mil empresas com dez ou mais empregados, ante 11 mil na Argentina em 2001. Além disso, 971 firmas brasileiras e 413 argentinas se enquadravam na categoria das que investem em inovação e diferenciação de produtos. Enquanto o retorno das empresas brasileiras nessa categoria atingia R$ 80,6 milhões, a contrapartida argentina era de US$ 26,8 milhões.

No ano 2000, cerca de 67 mil trabalhadores brasileiros estavam engajados em algum tipo de pesquisa, enquanto na Argentina esse número era de 14 mil em 2001.Entre o grupo de firmas que inovam e diferenciam seus produtos, o número médio de trabalhadores em P&D era de 23,8 no Brasil e de 6,03 na Argentina.

MULTINACIONAIS  “Estamos analisando mecanismos que possam elevar de 0,6% para 1,5% os investimentos em inovações por parte das empresas brasileiras”, destaca De Negri,”de modo a elevar o faturamento das firmas nacionais dos atuais R$ 5,1 bilhões para R$ 13 bilhões ao ano, além de dobrar o número de graduados e pós-graduados em pesquisa e desenvolvimento”.

Para o pesquisador, isso é possível pelo fato de o Brasil ter esse diferencial, que é o seu parque produtivo diversificado e com escala de produção capaz de inovar. Essa pode ser a explicação para o fato de as multinacionais estarem mais inclinadas a investir em processos de inovação no Brasil que na Argentina. Além disso, ele acredita que para o país alçar de vez o grupo dos países desenvolvidos deve investir mais em inovações tecnológicas nos próximos anos.

Como ressalta o economista Renato Baumann, diretor do escritório no Brasil da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), cada ponto percentual de aumento nas aplicações em pesquisa e desenvolvimento garante um retorno médio de 3% nas exportações, pela agregação de valor.

Outro dado que comprova a liderança brasileira em P&D é o número de pessoas envolvidas nos dois países: 20 mil no Brasil e 2 mil na Argentina.

Sobre esse aspecto, a pesquisadora Fernanda De Negri, do Mdic, ressalta que os investimentos das empresas multinacionais podem ser motivados pela existência de pessoal qualificado e custos mais baixos que nos países desenvolvidos.

Para os pesquisadores Eduardo Gonçalves, Mauro Borges Lemos e João Alberto De Negri, as corporações transnacionais estariam mais inclinadas a investir no Brasil do que na Argentina. O retorno financeiro no Brasil é cerca de quatro vezes maior, apesar de o pesquisador Bruno Araújo ter comprovado que o coeficiente de exportação das firmas argentinas é superior ao das empresas brasileiras.

MÃO-DE-OBRA  A falta de mão-de-obra qualificada preocupa mais as empresas argentinas do que as brasileiras, segundo as firmas inovadoras que afirmam ser este um obstáculo para o desenvolvimento de pesquisas. Conforme a pesquisadora Fernanda De Negri, 38% das multinacionais investem em inovação no Brasil, em comparação a 28% nas subsidiárias argentinas. “O Brasil, em decorrência do tamanho das subsidiárias, proporciona escalas de operação superiores às empresas estrangeiras, o que favorece a realização de atividades tecnológicas”, conclui a pesquisadora.

A política brasileira nesse segmento é ainda tímida. O percentual de firmas inovadoras que receberam financiamentos públicos para inovação no Brasil é de apenas 10%, ante 52% na Áustria, 51% na Finlândia, 37% em Portugal, 30% na França e 19% na Suécia. Segundo a pesquisadora, o Brasil tem um mecanismo de financiamento que alcançou nível de excelência – o sistema adotado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar bens de capital -, que deveria ser utilizado como modelo para o financiamento à inovação.

CRISE  O livro analisa ainda a crise argentina recente. Os pesquisadores Bernardo Kosacoff, diretor do escritório da Cepal na Argentina, e Adrian Ramos, também economista da Cepal, dizem que a volatilidade econômica do país cobrou um preço muito alto em termos sociais (aumento dos índices de pobreza) e, mais ainda, em relação à performance da economia industrial, o que afeta o processo de tomada de decisões quanto a investimentos e progresso tecnológico.

As empresas que não são encorajadas a adotar estratégias de crescimento permanecem em posição defensiva, o que afeta o seu desenvolvimento econômico, no longo prazo, dizem os dois pesquisadores.

Para outros dois analistas argentinos, Gustavo Lugones e Diana Suárez, que analisaram os sistemas de inovação dos dois países, a Argentina deveria aumentar os seus investimentos em P&D, enquanto o Brasil deveria dar prioridade ao aumento do número de pesquisadores em todos os setores do seu parque industrial.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: