Blog do Desemprego Zero

Etanol brasileiro é 8 vezes melhor que o americano

Posted by Beatriz Diniz em 6 maio, 2008

O Brasil tem sete milhões de hectares em plantações de cana. Desses, cerca de 3,5 milhões de hectares são usados para a produção de etanol e o restante utilizado para a produção de açúcar. Com os 3,5 milhõess de hectares de cana, o Brasil produz 22 bilhões de litros de etanol.Para os Estados Unidos produzir os mesmos 22 bilhões de litros de etanol, utiliza 85 toneladas de milho que é um alimento típico de consumo direto e indireto dos americanos.

*Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Conversa Afiada

Por: Paulo Henrique Amorin

O programa Entrevista Record, da Record News, discutiu, nesta terça-feira, dia 29, a influência da produção de etanol sobre a produção de alimentos no Brasil. Paulo Henrique Amorim entrevistou o chefe-geral da Embrapa Agroenergia Frederico Durães e o fazendeiro e conselheiro da Sociedade Rural Brasileira Luiz Hafers.

Durães disse que o etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil é oito vezes melhor, do ponto de vista do balanço energético, do que o etanol de milho produzido pelos Estados Unidos.

“A cana no Brasil, a relação é de 1 para 8, 1 para 10, depende da metodologia que se usa. E no etanol de milho, nos Estados Unidos, a relação é de 1 para 1,2 ou 1,3, a depender da metodologia, nos sistemas mais competitivos”, disse Durães.

Segundo Frederico Durães, o Brasil tem 7 milhões de hectares em plantações de cana. Desses, cerca de 3,5 milhões de hectares são usados para a produção de etanol. O restante é usado para produzir açúcar. E com esses 3,5 milhões de hectares de cana, o Brasil produz 22 bilhões de litros de etanol.

Para produzir os mesmos 22 bilhões de litros de etanol, os Estados Unidos utilizam 85 toneladas de milho, que é um alimento típico. “Mais de 80% do milho que produzimos no Brasil está embalado em suínos, aves e animais de grandes portes. Ou seja, é um alimento que, no consumo direto ou no consumo indireto, vai embalado em proteína animal. Ele é tipicamente um alimento”, disse Durães.

Hafers disse que o Brasil trabalha numa nova tecnologia para produzir etanol a partir da celulose. “Tem uma nova tecnologia sendo discutida de transformar celulosa em álcool. Inclusive para o bagaço da cana… Há um processo de química orgânica de transformar a cadeia orgânica em álcool. Ele é tecnicamente possível, economicamente ainda inviável”, disse Hafers.

Durães disse que a Embrapa trabalha em pesquisas para tornar a produção de etanol a partir de celulose economicamente viável. “A linha de lignocelulósico para produzir etanol é uma linha nova no mundo. No Brasil nós temos praticamente quatro densos programas, onde definimos quatro rotas tecnológicas para fazer esse novo desenvolvimento de tecnologia de segunda geração ser competitivo no médio e longo prazo”, disse Durães.

Durães e Hafers discordam que a produção de etanol de cana possa prejudicar a produção de alimentos no Brasil.

Luiz Hafers disse que o Brasil dobrou a produção de alimentos e triplicou a produção de cana. “Nós dobramos a produção de alimento nos últimos dez anos e triplicamos a produção de cana. São coisas diferentes. Aqui podemos fazer cana e alimento”, disse Hafers.

Clique aqui para ver o vídeo da entrevista com Frederico Durães, no site da Record News

Clique aqui para ver o vídeo da entrevista com Luiz Hafers, no site da Record News

Clique aqui para ler sobre o capim elefante.
Leia a íntegra da entrevista com Frederico Durães:

Paulo Henrique Amorim – Eu vou conversar agora com o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Frederico Durães. Senhor Durães, a primeira questão que eu gostaria que o senhor enfrentasse é essa disputa que existe entre a produção de cana e a produção de alimentos. Vários especialistas, vários ambientalistas acusam a cana-de-açúcar de reduzir a produção de comida. Isso é verdadeiro?

Frederico Durães – Isso é falso. Cana-de-açúcar, nos termos de Brasil, nós temos que avaliar algumas questões que interessam à agenda Brasil. De certa forma, nós temos que aclarar isso ao mundo, o que ocorre na competição de se fazer energia de biomassa e a produção de alimentos. Em termos de área, nós temos aproximadamente 7 milhões de hectares cultivados com cana-de-açúcar no Brasil, basicamente em dois grandes pólos. E essa fração, em relação à área total agriculturável do Brasil, é pequena, gira em torno de 2% da área cultivada no Brasil. E se formos pensar ainda na área total brasileira antropizada, ou seja, aquele em que o homem já trabalhou de alguma forma ou na área total do Brasil… O mundo precisava conhecer esses dados, entender que a situação do Brasil é confortável do ponto de vista de terra para produzir cana-de-açúcar.

Paulo Henrique Amorim – Eu entrevistei agora há pouco o Luiz Hafers, que é fazendeiro. E ele disse que o Brasil dobrou a produção de alimentos e triplicou a produção de etanol de cana nos últimos dez anos, sem que isso prejudicasse, portanto, a produção de alimentos. O senhor concorda com isso?

Frederico Durães – Esses dados brasileiros são importantes que a gente entenda essa dinâmica, esse histórico da agricultura para produzir energia, para produzir alimentos. E é importante que a gente aclare isso para o resto do mundo, que nós temos, nos componentes da equação brasileira para produzir alimentos e energia, algo diferenciado. Eu concordo que nós multiplicamos produtividade na área de alimentos e nós também aumentamos nossa capacidade de produzir energia baseada em energia de biomassa.

Paulo Henrique Amorim – O que o etanol de cana brasileiro tem de melhor em relação ao etanol de milho dos Estados Unidos?

Frederico Durães – Tem alguns aspectos que nós precisamos considerar claramente. Primeiro que o etanol de cana tem coeficientes ou rendimentos agronômicos industriais que favorecem a produção de etanol, tendo a matéria-prima cana, porque se trata de um sacarídeo, de uma molécula relativamente simples, que é uma sacarose, que desdobra em duas moléculas menores e, especialmente a glicose, é fementecível. Ou seja, a produção passa por um processo de balanço de energia bastante vantajoso para o Brasil. Ao passo que o etanol produzido nos Estados Unidos basicamente de milho que, não sendo um sacarídeo, é um amiláceo, precisa ter um dispêndio energético maior para hidrolisar esse amido. E com isso nós temos vantagens comparativas do ponto de vista de balanço de energia. A cana no Brasil, a relação é de 1 para 8, 1 para 10, depende da metodologia que se usa. E no etanol de milho, nos Estados Unidos, a relação é de 1 para 1,2 ou 1,3, a depender da metodologia, nos sistemas mais competitivos.

Paulo Henrique Amorim – Quer dizer que para produzir 1,2 de milho, os americanos gastam 1 de energia e nós para produzirmos 8 ou 10 de cana gastamos 1 de energia?

Frederico Durães – Exatamente. Essa é a relação que interessa ao mundo discutir e ao Brasil compreender as nossas vantagens comparativas para isso.

Paulo Henrique Amorim – Quer dizer que o etanol de cana é oito vezes melhor do que o etanol de milho?

Frederico Durães – Do ponto de vista de balanço de energia, sim. Do ponto de vista da molécula é a mesma.

Paulo Henrique Amorim – Agora, uma outra questão: nós não deixamos de produzir alimentos para produzir o etanol de cana e os americanos deixam de produzir para produzir o etanol de milho?

Frederico Durães – Essa que é uma relação interessante de se discutir. A cana no Brasil, em 7 milhões de hectares, os 22 bilhões de litros de etanol que produzimos tratamos em 3,5 milhões a 4 milhões de hectares. O restante, a diferença para os 7 milhões, é para produzir o açúcar, que é um alimento. No caso americano, o etanol americano, em torno de 22 bilhões de litros, está sendo produzido com aproximadamente 85 toneladas de milho, que é um alimento típico. Só para compreendermos, mais de 80% do milho que produzimos no Brasil, ele está embalado em suínos, aves e animais de grandes portes. Ou seja, é um alimento que, no consumo direto ou no consumo indireto, ele vai embalado em proteína animal. Ele é tipicamente um alimento.

Paulo Henrique Amorim – Ou seja, nós produzimos milho e vamos encontra-lo no suíno, na galinha e na vaca?

Frederico Durães – Exatamente. Nós produzimos uma cadeia de proteína de alto valor agregado.

Paulo Henrique Amorim – Agora, eu tenho um amigo que mora nos Estados Unidos que não está mais podendo comer polenta, por causa do preço do milho. É verdade?

Frederico Durães – É, na situação do continente americano ou no entorno daquele continente, o milho é, em grande parte ou numa parte significativa, para produzir etanol. Consequentemente, na matéria-prima milho há um crescente aumento de preços. Isso pode refletir em outras cadeias alimentares, inclusive na polenta, Paulo.

Paulo Henrique Amorim – E eu, que gosto de broa de milho, estou perdido…

Frederico Durães – Quem gosta de broa de milho ou tortilha está pagando um preço superior.

Paulo Henrique Amorim – Agora, senhor Durães, uma questão: se o Brasil vier a produzir muito mais etanol de cana do que ainda produz hoje, quem vai ter que fornecer essa terra para produzir cana?

Frederico Durães – Paulo, os cálculos do Brasil são relativamente simples. Nós não vamos porque não temos interesse, não queremos e não podemos substituir toda a gasolina do mundo por etanol brasileiro. Não é essa a estratégia brasileira para commoditizar esse produto…

Paulo Henrique Amorim – Qual é?

Frederico Durães – A commoditização significa mais do que um produzindo e mais do que um comprando. Nós temos a estratégia da seguinte forma: se estamos produzindo 22 bilhões de litros de etanol em 3,5 milhões a 4 milhões de hectares de cana, o restante é para açúcar, nós podemos ter em 20 milhões a 22 milhões de hectares a possibilidade de o Brasil estar oferecendo 50% da oferta do etanol para modificar a matriz mundial, substituindo 10% da gasolina no mundo. Isso é uma estratégia competente e importante para o Brasil. Nesses termos estamos confortáveis.

Paulo Henrique Amorim – E sem deixar de produzir um pé de couve?

Frederico Durães – Exatamente. Sem investir em biomas protegíveis ou sem desmatar, sem invadir pantanal, sem desestruturar outros ecossistemas mais frágeis, tipo semi-árido, mata atlântica ou mesmo os pampas, no Sul. Simplesmente colocando os rendimentos agrícolas na fase ou na vertente agrícola ou na fase ou na vertente industrial, a favor dessa competência.

Paulo Henrique Amorim – Por que o Brasil então já não faz quase isso e passa a vender mais etanol de cana nos Estados Unidos, se a relação de produtividade no Brasil é oito vezes melhor do que o etanol de milho?

Frederico Durães – Porque esse mercado internacional ele ainda precisa ser conquistado. O Brasil declara para o restante do mundo que temos um arranjo forte, competente, líder, sem dúvida, na tecnologia de primeira geração para produzir etanol e que os mercados mundiais vão, na substituição da matriz de fóssil aprendendo a fazer negócio com o Brasil e vice-versa para esse novo produto mundial.

Paulo Henrique Amorim – O senhor tem medo de os usineiros de São Paulo devastarem a floresta amazônica com vontade de produzir cana lá?

Frederico Durães – Não, não tenho, por algumas razões. Primeiro que o Brasil tem uma agenda pública para o negócio de energia de biomassa. Nós estamos trabalhando fortemente, a pedido do Governo Federal, sob a gestão do Ministro da Agricultura Reinhold Stephanes, para termos um zoneamento agro-ecológico e de risco climático da cana-de-açúcar no Brasil. Isso significa que nós vamos entender perfeitamente e declarar para a iniciativa privada onde serão as áreas prioritárias, as áreas marginais e as áreas proibidas para o negócio novo de cana, em expansão.

Paulo Henrique Amorim – Entendi. Senhor Durães, o senhor também é pesquisador e responsável pela área de pesquisas de agroenergia na Embrapa. A Embrapa é essa instituição de que todos os brasileiros se orgulham. E eu pergunto: o senhor poderia dizer, sem querer entregar o ouro aos bandidos, que linha de pesquisa o senhor está fazendo para descobrir novas fontes de energia ou aumentar a produtividade da produção de energia brasileira a partir da agricultura?

Frederico Durães – Na realidade, na Embrapa, nós temos três tipos de preocupação: uma para produzir alimentos, uma para produzir fibra e uma para produzir energia. E nós entendemos, depois de 35 anos de experiência nessa área de pesquisa e desenvolvimento, que o negócio do Brasil não se atém exclusivamente aos fatores clássicos de produção: terra, capital e trabalho. Nós precisamos fazer a gestão de território e trabalharmos uma logística para salto de competitividade. Portanto, a Embrapa encarou a missão nacional, dentro do Plano Nacional de Agroenergia, de quatro grandes plataformas: a de etanol, a de biodiesel, a de florestas energéticas e a de resíduos, que é um novo campo, que o mundo inteiro busca novas competências. Dentro disso, nós vemos as possibilidades de matéria-prima, desde a caracterização para fins competitivos, até mesmo a eficiência de processos, onde podemos fazer uma energia limpa, com balanço de energia favorável ao nosso negócio brasileiro. Essa que é, grosso modo, as grandes linhas de pesquisa dentro da Embrapa. E para cada uma dessas plataformas temos projetos ou um portfólio de projetos bastante competitivos ou para salto de competitividade, então.

Paulo Henrique Amorim – O senhor, eu imagino, está cuidando também de estudar a utilização da celulose como elemento de produção de energia também, junto com a cana, não é isso?

Frederico Durães – Perfeitamente.

Paulo Henrique Amorim – E o Brasil tem um potencial importante nessa área de eucalipto e celulose para a produção de energia?

Frederico Durães – Na realidade, a linha de lignocelulósico para produzir etanol é uma linha nova no mundo. No Brasil nós temos praticamente quatro densos programas, onde definimos quatro rotas tecnológicas para fazer esse novo desenvolvimento de tecnologia de segunda geração ser competitivo no médio e longo prazo. Isso significa dizer que, dentro de uma rota tecnológica, definimos claramente os passos, dentro de cada passo de uma rota tecnológica, os grandes gargalos passíveis, portanto, de inovação. E nas definições, dentro desses gargalos dos vários processos é que apostamos as nossas melhores fichas de competências tecno-científica, de recursos financeiros e de arranjos científicos para poder resultar impacto em cada um desses passos.

Paulo Henrique Amorim – No eucalipto e a produção de energia a partir da celulose o Brasil pode ter uma produtividade comparável no que tem na cana e no etanol de cana?

Frederico Durães – Em lignocelulósico, o Brasil discute e aprimora a utilização de alguns tipos de matéria-prima por questão de vantagens competitivas. As matérias-primas mais claramente pesquisadas são o bagaço de cana, as gramíneas de porte alto, onde o capim elefante tem uma grande promessa, o próprio soro sacaríneo e resíduos florestais, inclusive resíduos lignocelulósicos de eucalipto. Esses são os grandes grupos de matéria-prima que nós estamos caracterizando para entrar na rota de lignocelulósico.

Leia a íntegra da entrevista com Luiz Hafers:

Luiz Hafers, conselheiro da Sociedade Rural Brasileira, que presidiu entre 1996 e 2002.

Paulo Henrique Amorim – Essa crise de alimentos pode vir a ser, apesar de tudo, uma oportunidade para a agricultura brasileira?

Luiz Hafers – Lógico, mostra que a agricultura dos outros não é tão boa como dizem, a nossa é melhor do que eles temem e nós estamos aí como solução, e não como problema.

Paulo Henrique Amorim – Essa crise, porém, que por enquanto está lá fora, nós temos notícia de crise de fornecimento de arroz, alimentos básicos no Haiti, uma crise por causa da tortilla no México, que usa milho que vem dos Estados Unidos, tem outras crises que estão na África, na Ásia. De qualquer maneira, aqui no Brasil alguns produtos encareceram, produtos da cesta básica. A que se deve isso? Os problemas aqui no Brasil têm a ver com esse problema lá de fora ou são dois problemas diferentes?

Luiz Hafers – De jeito maneira. Nós dobramos a produção de alimento nos últimos dez anos e triplicamos a produção de cana. São coisas diferentes. Aqui podemos fazer cana e alimento. Por que subiu ? Porque os preços estavam muito baratos. O dólar não é mais aquele. Aumentou o consumo. Nós temos aumentado a produtividade. Mas uma série de insumos, principalmente adubo, mais que dobraram de preço. Adubo é petróleo, e ninguém fala nisso. O presidente Lula disse muito bem: “E do petróleo, ninguém fala?” grande parte do nosso custo é adubo. Adubo é petróleo.

Paulo Henrique Amorim – Você diria que esse problema que nós mencionamos e eu anunciei que você ia discutir, a questão dos subsídios à exportação dos produtos agrícolas dos Estados Unidos e da Europa. Por que você faz questão de dizer que o problema é o subsídio à exportação e não ao produtor propriamente dito?

Luiz Hafers – Porque eles deram subsídios enormes aos seus produtores, direito deles. Mas eles subsidiam a exportação. Por exemplo: açúcar custa US$ 700 para produzir. Na Europa eles vendem a US$ 200. Com isso destruiu a produção agrícola dos países mais pobres. A PL 480 – foi uma lei americana que dava os excedentes de trigo – destruiu a agricultura de subsistência, que era uma agricultura extremamente importante do ponto de vista social.

Paulo Henrique Amorim – Você está falando, sobretudo, na África.

Luiz Hafers – Na África, que é o problema mais grave. Em vez de comer mandioca produzida no fundo do quintal, comiam trigo produzido e subsidiado pelos Estados Unidos. Isso foi a maior imoralidade. Esse senhor, de nome complicado que eu me dou o direito de não repetir…

Paulo Henrique Amorim – Dominique Strauss-Kahn.

Luiz Hafers – Falar que é uma encrenca moral? Moral? Tá bom. Moral para eles. Eles nos estrepam a vida inteira, criticam tudo e agora vêm com moral. Eu acho que nós, Paulo Henrique, precisamos ser um pouco mais ásperos. Nós temos uma mania de querer ser gostado. Eu quero ser respeitado. Se gostar, muito bem. Se não gostar, passar bem.

Paulo Henrique Amorim – Isso você se refere à acusação de que a produção de cana e, portanto, a produção de etanol no Brasil acaba sendo responsável pela redução da oferta de alimentos. Isso, no Brasil, é uma balela como você acabou de demonstrar.

Luiz Hafers – É pior: é burrice. Esse outro, que graças a Deus vão despedir esses dias , o senhor Jean Ziegler, nasceu num país que é menor do que a ilha do Marajó.

Paulo Henrique Amorim – A Suíça.

Luiz Hafers – Como é que uma zebra dessas pode ter idéia do que seja o Brasil. Por exemplo: disse que a cana compete. O Brasil ainda tem 200 milhões de hectares de pasto; toda a expansão de grãos e de cana vai ser em cima de pastos degradados. Por que pasto? Porque o pessoal do boi foi lá, no tempo que não tinha estrada, não tinha escola, chegaram e agora vão os produtores. Eu tenho um profundo otimismo de que nós vamos resolver muito bem essa questão, mas não com conversa de europeu.

Paulo Henrique Amorim – Nem de americano.

Luiz Hafers – Nem de americano.

Paulo Henrique Amorim – Luiz, do ponto de vista da dona-de-casa, do consumidor, nós devemos temer, aqui no Brasil, algum tipo de aumento de produtos alimentícios por causa da entrada, também no mercado aqui no Brasil, de novos consumidores de alimentos, ou não?

Luiz Hafers – Olha, isso é a famosa lei da demanda e da procura. O povo está comendo melhor. As filas de supermercado são diferentes, estão melhorando. Come-se muito mais caro. O Brasil é um grande comedor de carne.

Paulo Henrique Amorim – Como suíno, come frango, carne bovina…

Luiz Hafers – Come boi. Mas não vai faltar. Nós somos enormes produtores. Nós somos os maiores produtores do mundo de dez produtos agrícolas diferentes. A dona-de-casa pode ficar completamente convencida de que a agricultura não vai deixá-la na mão. E quando eu falo com a senhora eu acho que a senhora é a pessoa mais importante da nossa agricultura: a senhor é o consumidor. Não adianta produzir para quem não pode comprar.

Paulo Henrique Amorim – Essa crise internacional, e nós estamos falando provocada, segundo a própria FAO, pelo aumento da demanda, aqueles que ficaram acima da linha de pobreza na Índia e na China. Como é que isso beneficia o Brasil?

Luiz Hafers – Aumentando o mercado, mais compradores. Eu, quando era presidente da Sociedade Rural Brasileira, nós produzíamos 70 milhões de toneladas de grãos. Hoje nós produzimos 140 milhões. Nós poderemos produzir 300 milhões, se aparecer o comprador a preços justos, nós poderemos produzir.

Paulo Henrique Amorim – Eu lembro que entrevistei você várias vezes e você dizia que o pessoal que produz o alimento transgênico tinha perdido a batalha da opinião pública. Que eles tinham um bom produto na mão e que, no entanto, não souberam explicar isso à opinião pública e os “verdes” tomaram conta e acabou havendo uma polêmica que não precisava ter havido, isso atrasou a introdução do transgênico no mundo. Não há o risco de o etanol, o biocombustível, vir a perder para os “verdes” a batalha da opinião pública e se criar uma outra celeuma como a dos transgênicos?

Eu espero que não porque não há razão nenhuma para ser contra. A não ser dogmaticamente contra, politicamente contra, mal-humoradamente contra. E aqui não é novidade isso. Por exemplo, os transgênicos. Faz 20 anos que tem transgênico aí e nunca deu nenhum problema. Inclusive você me entrevistou com dona Marjane (do Greenpeace), uma vez, que era furiosa contra. Aconteceu uma coisa fantástica outro dia. Foram dar milho transgênico para o africano morrendo de fome. Não aceitaram. Morrer de fome pode. Do risco do transgênico não existente, não pode. Eu acho que uma das razões que eu acho que nós devemos – e eu agradeço muito você – é mostrar para o consumidor que existe uma implicância com o crescimento do Brasil interna e externamente. A senhora pode se orgulhar da sua agricultura, pode se orgulhar e deve se orgulhar da força do Brasil. Outra campanha que vem por aí é o eucalipto. Eucalipto faz o papel e vai fazer álcool logo. Fazem campanha contra.

Paulo Henrique Amorim – Como vai fazer álcool?

Luiz Hafers – Porque tem uma nova tecnologia sendo discutida de transformar celulosa em álcool. Inclusive para o bagaço da cana. Outra coisa que pouco se fala é que, nas novas usinas, o valor de energia gerado com os bagaços de cana em alta pressão vai ser igual ao faturamento do álcool. E isso a US$ 50 o megawatt, que é o preço que o Paraguai está reclamando.

Paulo Henrique Amorim – Quer dizer, se eu entendi bem, a energia que as usinas de álcool vai gerar, vai ter o mesmo valor do etanol de cana. Quer dizer que nós vamos ser duas vezes produtores de combustível.

Luiz Hafers – Exatamente. E hoje tem uma enorme vantagem, isso é feito na época seca, quando às vezes falta água. Tem outra vantagem: não precisa de enormes e caríssimas linhas de transmissão porque essa energia vai ser gerada junto aos consumidores. Quer dizer, é imbatível.

Paulo Henrique Amorim – Vamos voltar um pouquinho a essa coisa que você falou muito rápido, o eucalipto. Vai ter uma tecnologia de tirar energia da celulose.

Luiz Hafers – Não, álcool da celulose. Há um processo de química orgânica de transformar a cadeia orgânica em álcool. Ele é tecnicamente possível, economicamente ainda inviável.

Paulo Henrique Amorim – E que país do mundo tem condições de plantar eucalipto na quantidade que o Brasil tem?

Luiz Hafers – Nós. A África tem também, mas as condições da África são muito complicadas, as condições políticas. Veja países que estavam razoavelmente estruturados, como o Zimbábue. Eu estive no Zimbábue há alguns anos atrás e foi absoluta e totalmente destruído.

Paulo Henrique Amorim – Quer dizer que o Brasil, quando vier essa nova fronteira de produção de energia através do eucalipto, o Brasil também será competitivo?

Luiz Hafers – Também. E outra coisa que eu quero dizer, Paulo Henrique, agricultura e mão-de-obra está num ponto de ruptura, não é de evolução, é mudança de paradigma. E quem tem esse novo paradigma é o Brasil.

Paulo Henrique Amorim – Por quê?

Porque nós temos terra, sol, água e tecnologia. Um dos problemas que havia na agricultura brasileira é que nós éramos colonialmente controlados. Nós éramos criticados por não produzir trigo. Os americanos não produzem banana, não tem nada contra. Diziam que não dava soja nos trópicos. Está aí. Então, mudou o paradigma. Mudou o paradigma, isso começou em 1960 e foi extraordinariamente avançado com a Embrapa. A Embrapa é a coisa mais importante. Eu quero chamar a atenção de que a agricultura saiu de um hardware de ter terra para o software de gerência econômica, financeira e, principalmente, técnica.

Paulo Henrique Amorim – Por falar nisso, o que você acha dessa operação que fez com que a Cosan, que é um dos maiores produtores de etanol e cana do Brasil, comprasse a Esso.

Luiz Hafers – Brilhante, porque são grandes produtores de álcool e, na outra ponta, iam ficar praticamente independentes de um quase cartel. De dois ou três distribuidores de gasolina e álcool.

Paulo Henrique Amorim – Principalmente da Petrobras.

Luiz Hafers – Principalmente da Petrobras.

Paulo Henrique Amorim – Quer dizer, toda a produção de cana e de etanol do Brasil ia ficar na mão de um comprador, que é a Petrobrás, dos distribuidores.

Luiz Hafers – Mas eram dois, três. Agora, a Cosan controlando boa parte disso ela tem maneiras de ter independência e poder. Foi uma operação brilhante.

Paulo Henrique Amorim – E você acredita que vai haver no futuro mais consolidação, mais reunião, reunião de grandes grupos na área de cana ou não?

Luiz Hafers – Eu acho que sim, Paulo Henrique. Uma das coisas que me preocupam, principalmente em café, que você sabe que é minha paixão e geralmente paixão termina mal: em desaponto ou em casamento. Mas o mundo produtivo caminha para o muito grande e para a boutique. Se você não tiver uma coisa especial para oferecer você precisa ter escala. E eu acho que isso vai acontecer em tudo e está acontecendo. Se bem que, a vantagem do álcool é que ele é produzido perto de onde ele é distribuído. Então, ele dá mais poder a quem produz e menos a quem distribui.

Paulo Henrique Amorim – E você não colocou aí a agricultura familiar. O Brasil é forte em agricultura familiar? É importante para o Brasil a agricultura familiar?

Luiz Hafers – Muito importante. Às vezes eu até sou criticado por economistas urbanóides de qualidade asfáltica, nunca viram lama ou pó na vida, só livro. A agricultura familiar tem seu lugar e é muito importante. Primeiro, que ela é muito mais barata na mão-de-obra, ela emprega muita gente, não tem impostos. Segundo: vive-se muito melhor num sítio, ainda que financeiramente mais pobre do que pendurado num ônibus, duas horas para ir e duas horas para voltar. E a outra coisa é que quando houve o grande desenvolvimento brasileiro, nós largamos para trás alguns milhões de brasileiros na transferência de renda. Essa população pobre existe. Sem dúvida nenhuma a agricultura familiar é uma das soluções e é muito importante. Eu sou muito favorável e é socialmente competente e economicamente suficientemente competente.

Paulo Henrique Amorim – Quer dizer, você não imagina que a grande empresa de agrobusiness vá sufocar eliminar a agricultura familiar. Tem espaço para os dois.

Luiz Hafers – Não vai, tem espaço e deve ter espaço para os dois. Eu acho que esse dogmatismo de preto e branco, maniqueísmo de grande e pequeno estão errados. Eu acho que agricultura familiar e agricultura empresarial. Porque, senão, não tem volume. O agricultor familiar vive bem e sobra um pouco. A outra produz muito.

Paulo Henrique Amorim – Você está preocupado com a entrada de capital estrangeiro na agricultura brasileira?

Luiz Hafers – Não.

Paulo Henrique Amorim – Porque está entrando muita gente, o Soros está fazendo cana… você não está preocupado com isso?

Luiz Hafers – Por que? Vamos ganhar dinheiro juntos. Eu acho que vai dar emprego, produção, vai trazer tecnologia, vão aprender conosco, ou nós somos contra o capitalismo, que é a base da crítica a isso? A maior parte da crítica ao nosso sistema são, principalmente os competidores europeus e americanos. Estão apavorados. E outro, o Psol, porque o socialismo não deu certo, caiu o muro na casa deles e eles têm um medo terrível que alguém fique rico. E nós vamos ficar rico.

Paulo Henrique Amorim – Nós, que você quer dizer, o Brasil.

Luiz Hafers – Nós todos, brasileiros.

 

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