Blog do Desemprego Zero

A crise dos alimentos

Posted by Beatriz Diniz em 9 maio, 2008

“O professor da Universidade de Nova York e economista-chefe do site RGE Monitor, Nouriel Roubini, acredita que o problema da escassez de alimentos será resolvido dentro dos próximos 12 meses. Neste caso, ele prevê que a resposta dos fazendeiros aos altos preços será rápida, com um aumento significativo da produção já nas próximas safras. Portanto, estariam equivocadas as soluções mais imediatistas adotadas por alguns países, como as restrições às exportações, que mantêm os preços em patamares artificialmente baixos. O Brasil, de acordo com o especialista, tem um papel estratégico neste momento, pela capacidade natural de arrancar primeiro na corrida para oferecer comida ao restante do mundo.”

*Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Carta Capital

Por: Nouriel Roubini      

Embora se mantenha cético quanto à capacidade de retomada do crescimento econômico global após a crise das hipotecas nos Estados Unidos, o professor da Universidade de Nova York e economista-chefe do site RGE Monitor, Nouriel Roubini, acredita que o problema da escassez de alimentos será resolvido dentro dos próximos 12 meses. Neste caso, ele prevê que a resposta dos fazendeiros aos altos preços será rápida, com um aumento significativo da produção já nas próximas safras. Portanto, estariam equivocadas as soluções mais imediatistas adotadas por alguns países, como as restrições às exportações, que mantêm os preços em patamares artificialmente baixos. Válida, no curto prazo, é a política de apoio às nações mais pobres, nas quais é realmente urgente o combate à fome. O Brasil, de acordo com o especialista, tem um papel estratégico neste momento, pela capacidade natural de arrancar primeiro na corrida para oferecer comida ao restante do mundo.

CartaCapital: Muitas soluções diferentes têm sido apresentadas pelos países à crise dos alimentos. Quais delas são realmente capazes de resolver o problema ou diminuir seus efeitos?
Nouriel Roubini: Muitas reações vão na direção contrária de uma solução de longo prazo. Alguns países produtores tentam manter os preços mais baixos internamente, ao restringir as exportações. Isso beneficia aquele país especificamente, mas faz a crise dos alimentos se agravar globalmente. Ao tentar impor controles artificiais de preços, os governos deixam de dar incentivos aos agricultores para produzir mais. Muitas das políticas adotadas são contraproducentes. É claro que a comunidade internacional deveria estar oferecendo mais fundos, além de adotar mecanismos para ter a certeza de que a comida está chegando aos realmente necessitados. Mas a crise atual exige que se deixem os mecanismos de mercado agirem. Se os preços dos alimentos se mantiverem altos no curto prazo, vão estimular os fazendeiros a aumentar a área plantada. Para esse tipo de commodity, é mais fácil elevar a produção do que para itens como o petróleo, que, mesmo com o estímulo dos preços altos, exige anos de pesquisa e exploração, gastos tremendos com a perfuração de poços antes de chegar à etapa de extração. No caso dos alimentos, a resposta pode vir em uma safra ou duas.

CC: O senhor acredita que todos os países são capazes de elevar a produção de alimentos em um curto espaço de tempo?
NR: Na verdade, creio que existem condições de aumentar a produção em países como os Estados Unidos, no Brasil, nos mercados emergentes e na Europa. Por outro lado, há o problema de que, como alguns grãos são usados na fabricação de biocombustíveis, parte da terra deixa de ser usada na produção de comida. No Brasil, o etanol não precisa mais ser incentivado, mas, nos EUA, a produção de etanol é altamente subsidiada. Isto cria uma distorção que exacerba o problema. As políticas para subsidiar o etanol constituem uma dimensão importante da crise alimentar.

CC: O presidente Lula tem se esforçado para mostrar que o etanol de cana-de-açúcar é produzido sem prejuízo para outras lavouras.
NR: A produção de etanol à base de cana é bem mais eficiente do que a de milho. O Brasil subsidiou a produção há muito tempo, mas hoje o processo é mercadologicamente sustentável. Não acho que o etanol de cana seja parte do problema atual. Transformar o milho e outros grãos em biocombustível é um problema bem mais sério.

CC: Qual seria o papel do Brasil diante da crise?
NR: O Brasil, mais do que outros países, tem grandes áreas de terra e, se souber utilizar os recursos naturais disponíveis para aumentar a produtividade agrícola, poderá ampliar as vantagens comparativas na produção de alimentos. As únicas restrições são ambientais, porque é preciso evitar que sejam causados danos à Amazônia para ampliar, desnecessariamente, as áreas atuais de cultivo. 

CC: Por quanto tempo o senhor acredita que o quadro de escassez de alimentos deverá perdurar? 
NR: Em minha opinião, esta é uma crise que não deverá se prolongar por mais que 12 meses. Certamente, há um elemento de sazonalidade envolvido, mas, com os preços se mantendo tão altos, muitos fazendeiros, em muitas partes do mundo, estão começando a produzir mais. E, quanto melhor for a resposta dos fornecedores de sementes e implementos, mais rápida e elasticamente ocorrerá a retomada. Espero que, em cerca de um ano, possamos observar uma resposta positiva à demanda.

 

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2 Respostas to “A crise dos alimentos”

  1. Bezerra said

    Lendo esta entrevista parece que o entrevistado acredita fidedignamente na mão invisível do mercado. Parece esquecer que não há a possibilidade da contrololabilidade do capital.

  2. Nouriel Roubini costuma fazer boas análises sobre a conjuntura econômica global. Creio que ele não foi feliz nessa entrevista, pois já se mencionou publicamente a migração do capital especulativo que se encontrava alocado no setor imobiliário para os negócios futuros em commodities agrícolas.

    A crescente especulação estaria operando, segundo alguns analistas, uma espécie de profecia auto-realizável no viés de alta dos preços. Além disso, há poder de mercado de grandes empresas no setor de alimentos. O mundo não se encaixa na teoria neoclássica, que busca negligenciar a influência do poder nos processos econômicos.

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