Blog do Desemprego Zero

O dia que o PSDB perdeu a elegância

Posted by Beatriz Diniz em 9 maio, 2008

Valor Econômico – 8 de maio de 2008 – Quinta-feira

 Maria Inês Nassif

 O PSDB perdeu a elegância. A reunião do diretório municipal que decidiu na segunda-feira à noite, sob troca de insultos, levar à convenção o nome do ex-governador Geraldo Alckmin para disputar a Prefeitura de São Paulo, não ficou a dever aos episódios que culminaram, no passado, com o fim da hegemonia do grupo de Ulysses Guimarães no PMDB.

 O PMDB mantinha uma frágil coesão, dada pela ascendência de alguns líderes sobre a massa partidária e pela habilidade deles de trocar acordos regionais por apoio político nacional. O equilíbrio pressupunha a ação de um mediador, um líder capaz de neutralizar tanto a direita como a esquerda partidárias. Ulysses Guimarães cumpria esse papel, ora estimulando um lado, ora reforçando outro – e, por meio das lideranças de grupos ideológicos que rivalizavam e se compunham sob a sua batuta, mantinha controle relativo sobre lideranças regionais e colocava o partido em movimento. Era o suficiente para não abalar a composição nacional.

 O ocaso de Ulysses veio pelas mãos do ex-governador Orestes Quércia, que alterou a lógica interna de poder. Saía o acordo de cúpula, entrava em cena o compadrio. Quércia conquistou a hegemonia baseando-se nos votos de convencionais – seduzidos, um a um, por trocas, pequenos favores e até simples atenção – e em alianças inusuais para o partido, como com o ex-revolucionário MR-8, que introduziu nas convenções os apupos, as vaias e até a agressão física. Acabou a elegância e as articulações nos bastidores. Quando Quércia disputou a presidência com Ulysses, era difícil acreditar que um político sem pedigree e sobre o qual se insinuavam suspeitas variadas iria dar um nó no velho dirigente. Deu. Quando já tinham se ido os dedos, Ulysses compôs com Quércia e perdeu, por isso, a banda paulista liderada por Mário Covas.

 O PMDB sob o comando de Quércia não teve mais volta: a partir de então, grudaram na folha corrida do partido uma sucessão de deselegâncias, normalmente expostas em disputas nacionais de poder. O ex-presidente da República Itamar Franco, por exemplo, em 1998, foi humilhado na convenção, quando tentava obter o apoio da maioria para disputar um novo mandato presidencial. O PMDB governista de então, que apoiava a reeleição de FHC, submeteu-o a humilhações. No vídeos e nas fotos, era possível ver parlamentares e políticos pemedebistas se despojarem de imagens públicas de altivez e dignidade e assumirem o papel de torcidas de futebol nos plenários da convenção nacional, até que não sobrasse outra alternativa a um ex-presidente da República senão calar a boca. Esse é apenas um exemplo. Quase todas as convenções nacionais do PMDB depois que Ulysses foi destituído de seu papel de mediador foram assim.

  

Esse processo estava em curso quando o PSDB se formou, durante a Assembléia Nacional Constituinte. Como o velho PMDB, no entanto, o PSDB manteve a particularidade de construir o seu poder nacional sobre a política paulista, ou a partir dela.

 

 

 

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Ninguém pede licença na disputa por poder

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Quando deixou Ulysses para trás com o seu PMDB em frangalhos, o PSDB paulista tinha cardeais suficientes para formar o que se chama de “partido de quadros”. Sem dúvida era um. Tinha em São Paulo Fernando Henrique, um sociólogo aclamado internacionalmente; um ex-governador, Franco Montoro, que conseguiu imprimir uma marca social-democrata em seu governo; um ex-cassado, Mário Covas, que era um político emblemático por sua coragem e caráter; o ex-presidente da UNE José Serra. Os paulistas que vieram juntos, inclusive Geraldo Alckmin, então muito ligado a Serra, eram seguidores. Apenas isso. O então governador do Ceará, Tasso Jereissati, tido como representante de uma nova geração, técnica, de governantes, era adepto. O mineiro Aécio Neves foi absorvido, como uma exceção, como “quadro”.

 

 

A presidência do PSDB, ao contrário da do partido que foi a sua costela, deixou de ter importância – à exceção do período em que o então ministro de Fernando Henrique, Sérgio Motta, usou das prerrogativas de dirigente para abrigar na legenda número suficiente de parlamentares para tornar o PSDB uma das três grandes com condições de disputar poder dentro do parlamento. Existia, nesse período, também um equilíbrio precário: o poder era, de fato, uma composição entre o cardinalato. Um “trator” como Sérgio Motta, no entanto, cumpria o papel de vascularizar o partido, trazendo adeptos de todo o país sem exigência de bons antecedentes e negociando com eles os poderes de decidir regionalmente a vida das legendas. E Covas, nos momentos de conflito – não necessariamente com elegância ou delicadeza – enfrentava os demais líderes e acomodava egos em disputa. Covas era mediador porque tinha personalidade forte e uma generosidade que era rara nos tucanos paulistas. Suas candidaturas, em regra, eram pautadas pelos interesses eleitorais do partido.

 

 

Com a morte do articulador e a do superego partidário, o círculo se fechou completamente e o mediador passou a ser FHC. A direção do partido não deixou espaço para ascensão interna na máquina partidária. Isso aconteceu apenas episodicamente, por vínculos ou interesses dos cardeais.

 

 

Partidos com hegemonia paulista, porém pouco espaço para mobilidade interna, tendem a explodir primeiro em São Paulo. O poder paulista em algum momento acaba conflitando com o poder nacional. Alckmin, feito governador por ser vice de Covas (e, na composição, o nome aceito para vice por Serra e FHC), soube manejar a política tradicional e fez o trabalho do peão – aquele que faz prefeitos e convencionais seus amigos e acena para eles com um poder que transborde a fronteira de seus municípios. Não é uma tática nova. Foi assim que o ex-governador Paulo Maluf conseguiu desbancar o candidato dos generais na convenção do PDS, em 1984. Foi da mesma forma que Quércia desbancou o poder nacional do paulista Ulysses.

 

 

E é assim que um partido de quadros perde a elegância. Quem tem ambição, mas não possui espaço de mobilidade, vai atrás. E essa pressão não faz parte do equilíbrio de poder. Como devem saber os cardeais do PSDB, que sempre brigaram entre si, ninguém disputa poder pedindo licença. Até porque eles não a dão.

 

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

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