Blog do Desemprego Zero

Movimentos para interromper as mudanças na América Latina

Posted by Beatriz Diniz em 11 maio, 2008

Se estivéssemos em um jogo de estratégia, poderíamos reconhecer um conjunto de jogadas quase simultâneas que foram configurando a possibilidade de uma ruptura nos processos latino-americanos de recuperação de soberania, adverte a socióloga mexicana Ana Ester Ceceña.

Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Agência Carta Maior

Por: Ana Ester Ceceña

A Bolívia está em uma das encruzilhadas mais perigosas que já enfrentou nos últimos tempos. O dia 4 de maio, data da realização de um referendo convocado pela oligarquia autonomista da chamada Meia-Lua, a despeito da sua ilegalidade representa um ponto de inflexão, ou de ruptura, tanto nos processos internos como nos da América Latina em seu conjunto.

Se estivéssemos em um jogo de estratégia, poderíamos reconhecer um conjunto de jogadas quase simultâneas que foram configurando a possibilidade de uma ruptura nos processos latino-americanos de recuperação de soberania:

1. Uma campanha midiática permanente, centrada no presidente Chávez como figura do mal, que busca obstaculizar qualquer tipo de articulação alternativa daquela que é promovida pelos Estados Unidos através dos seus tratados de livre comércio, de investimento e de cooperação em segurança.

2. Uma mudança na orientação normativa dos códigos penais, tendente a criminalizar as ações de resistência civil e de defesa do território.

3. Uma tentativa de estender o Plano Colômbia para o Paraguai, desde um ano antes da última eleição, e para o México, com o argumento de que nesses países há presença ativa das FARC na forma de campos de recrutamento e treinamento. Esta ofensiva é mais intensa no caso do México, depois do ataque em Sucumbíos, onde foram assassinados quatro estudantes mexicanos e ferida uma quinta.

4. Um golpe brutal contra o processo equatoriano, violando de modo flagrante sua soberania, colocando em tensão o conjunto da região. Tão grave, tão por surpresa e tão violatório foi o ataque, que obrigou a mobilizar tropas em alerta para as fronteiras do Equador e da Venezuela, levou a um inédito debate na Cúpula de Presidentes em Santo Domingo e ao rompimento de relações, até esta data, entre a Colômbia e o Equador.

Neste caso, a mão do jogador oculto ficou ao descoberto em virtude de que tanto a Assembléia Constituinte do Equador como o presidente Correa enfrentaram o fato em toda a sua complexidade. Depois de analisar a informação técnica do bombardeio, parece fundada a suspeita de um envolvimento da base de Manta e exige-se a realização de uma auditoria que determine as atividades dessa instalação antes, durante e depois de 1º de março de 2008. E, embora esta base termine seu convênio em 2009, seu envolvimento no ataque poderia modificar sua permanência.

Pode-se dizer que apesar da jogada ter estado muito bem planejada, e aparentemente contou com apoio interno, a julgar pela omissão de informação e resposta do exército e pela restruturação posterior das cúpulas militares, seu resultado não foi completamente satisfatório. Talvez foi ousada demais para um contendor que ainda não havia se mostrado plenamente, e que terminou sendo muito mais sólido, firme e aguerrido do que se podia supor.

5. Campanhas de cooptação por parte da Embaixada dos Estados Unidos na Bolívia, como foi oportunamente denunciado pelo presidente Evo Morales, tentando desacreditar e debilitar a Assembléia Constituinte mas, adicionalmente, buscando formar essa força desestabilizadora que, ao lado da oligarquia da Meia-Lua, chegaram a propor, e organizar, um referendo ilegal e de enfrentamento.

6. Como dado aparentemente menor, se for visto isoladamente, na zona de Chaco estão sendo registrados, novamente, exercícios militares que envolvem a presença de efetivos norte-americanos. Esta região, lindeira com a zona boliviana em conflito e dotada das jazidas de gás que têm sido objeto de disputa, é cenário de exercícios militares, ou de missões chamadas humanitárias, das forças armadas estadunidenses há tempos. A partir do ano 2000, esses exercícios aumentaram, coincidindo com as impugnações à privatização e com o saque dos recursos naturais por parte das organizações sociais da região.

Durante 2006 e 2007, como parte do convênio de imunidade das tropas norte-americanas no Paraguai, concedido pelo Congresso, foi reformado o aeroporto militar de Mariscal Estigarribia, notável por seu baixíssimo tráfego, suas boas condições e suas dimensões, adequadas para receber o pouso de aeronaves “de grande envergadura”, capazes de transportar equipamento pesado e ligeiro e grandes quantidades de efetivos.

Aos tradicionais MEDRETES (exercícios de atenção médica) realizados no Paraguai e àqueles que se realizam nos rios Paraguai e Paraná, somam-se hoje (notícia da última semana de abril) os exercícios Nuevos Horizontes (supostamente para construir escolas) no Chaco argentino.

7. Encerrando com fecho de ouro estas que são apenas as jogadas mais evidentes, mobiliza-se a Quarta Frota da Marina norte-americana para articular e institucionalizar as patrulhas em torno do Continente, que até agora eram feitas, cada vez com maior intensidade e presença, como operações isoladas.

A Quarta Frota estabelece as novas fronteiras do Continente. Um Continente cercado a partir do mar, se a iniciativa não for impugnada.

O desafio do referendo é, de fato, neste contexto, a provocação que poderia acender a mecha. A beligerância da oligarquia boliviana foi crescendo ao mesmo tempo que as declarações do embaixador dos Estados Unidos se tornavam mais agressivas contra o governo legítimo e constitucional de Evo Morales, sua agressividade parece buscar mais um confronto do que um resultado nas urnas. Uma guerra civil poderia começar, sem muito trâmite, e levaria o Continente inteiro para uma nova época de escuridão que só satisfaz aos corvos.

A mesa está posta. Resta apenas a maturidade do povo boliviano para desmontar a armadilha que está fazendo crescer a tensão e acendendo a mecha.

As últimas medidas de nacionalização do presidente Morales deixam ver que sua aposta é pelo compromisso, talvez ainda mais firme que quando assumiu suas funções, com o povo ativo, rebelde e mobilizado da Bolívia.

“Somente o povo salva o povo”.

* Ana Esther Ceceña é socióloga, integrante do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso)

 

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