Blog do Desemprego Zero

O que significa “investment grade”?

Posted by NOSSOS AUTORES em 13 maio, 2008

Publicado originalmente no site MSIa – Movimento de Solidariedade Ibero-americana

Por Adriano Benayon*

Os adeptos da dependência ao Norte não cabem em si de alegria com o upgrade dado ao Brasil por uma das principais agências internacionais de avaliação de crédito, a Standard & Poors, para “investment grade”, ou seja, baixo risco de inadimplência.

Antes de discutir se a posição financeira do Brasil realmente melhorou, ou se está piorando, convém liberar-se da poluição cerebral dominante entre os associados e os satélites do capital estrangeiro. Ela os faz deslumbrar-se diante de avaliações e conselhos provindos de instituições financeiras, bancos, empresas e governos do “Primeiro Mundo”.

Para começar, qual é credibilidade das agências de crédito? Deveria ser nenhuma ou abaixo de zero. Que elas sejam reconhecidas e certificadas pelo governo dos EUA em nada altera os fatos: foram essas agências que atribuíram a mais alta nota (AAA) a títulos derivados das hipotecas do mercado imobiliário dos EUA, em valor nominal de dezenas de trilhões de dólares, os quais estão na raiz do colapso financeiro mundial e não passam hoje de junk bonds (lixo financeiro).

A Standard & Poors e a Moody’s conferiram a classificação AAA até para as “Monolines”, companhias de seguro que garantiriam aqueles títulos e estão completamente falidas.

Em suma, – tal como o Federal Reserve e outros bancos centrais, e como governos do “Primeiro Mundo”, – as agências de crédito destinam-se a servir os grandes bancos e fundos de investimento que comandam a finança mundial, beneficiários também das absurdas taxas de juros praticadas no Brasil. Esses trazem cada vez mais capitais de curto prazo para cá, ao mesmo tempo em que extraem daqui cada vez mais rendas de juros, apreciação de câmbio, ganhos de capital com derivativos e outras manobras no mercado financeiro “brasileiro”.

São os mesmos infladores da bolha cujo espocar está abalando os mercados estadunidense e europeu. Vai haver um momento em que, reduzida a entrada no Brasil da quantidade incrível e crescente de capitais estrangeiros de curto prazo, as saídas dos ganhos e o retorno de parte dos capitais causarão déficits no movimento de capitais do balanço de pagamentos brasileiro.

O financiamento desses déficits implicará a retomada do crescimento em flecha da dívida externa. De resto, esta não teve redução nem mesmo de 2003 a 2007, quando houve grandes saldos comerciais e saldos positivos nas transações correntes com o exterior. De fato, contados os empréstimos intercompanhias (das matrizes às subsidiárias das transnacionais), a dívida externa total fechou 2002 com 227,5 bilhões de dólares e 2007 com 237,1 bilhões.

As tão trombeteadas reservas atingiram 180,3 bilhões de dólares, mas são reféns de aplicações em títulos da dívida pública interna e em títulos privados no Brasil. A dívida mobiliária interna federal está em R$ 1,4 trilhão, equivalentes a 800 bilhões de dólares.

Mesmo de 2003 a2007, o superávit acumulado nas transações correntes não passou de 46,4 bilhões de dólares, e teria sido de apenas 28,3 bilhões, excluídas as transferências unilaterais (remessas de trabalhadores, com superávit de 18,1 bilhões). A balança comercial teve um saldo de 190,2 bilhões de dólares. Portanto, o déficit acumulado de serviços e de rendas (juros e lucros oficialmente remetidos) foi de 161,9 bilhões de dólares.

Desde meados de 2007, sumiram os saldos comerciais significativos. O balanço de transações correntes apresenta déficit acima de 9 bilhões de dólares nos últimos 12 meses, com impressionante aceleração em 2008. Basta comparar o déficit de 10,8 bilhões de dólares no primeiro trimestre deste ano com o minguante superávit do primeiro trimestre de 2007 (241 bilhões). Nesse ritmo o déficit de transações correntes pode passar de 50 bilhões de dólares no ano.

A conta de serviços e rendas acusou um déficit recorde de 5,8 bilhões de dólares em março de 2008, e o componente de destaque são as remessas de lucros e dividendos, que atingiram 4,3 bilhões de dólares nesse mês e 8,6 bilhões no trimestre. A escalada é vertiginosa: média anual de 1999 a 2005, em dólares: 4,7 bilhões; 2006: 13,9 bilhões; e 2007: 17,9 bilhões.

Essas transferências são uma pequena parte das remessas reais às matrizes das transnacionais, pois o grosso vai nos preços do comércio exterior. Os oligopólios que dominam a produção determinam baixo valor agregado nas exportações e intensificam a importação superfaturada de equipamentos,
insumos e “serviços”.

Diante desse cenário, o Banco Central e os que ditam a sua política anunciam mais elevações da taxa de juros, o que tende a manter o valor do real, mas somente enquanto a atração dos capitais estrangeiros não for superada pela avalanche das saídas. O resultado certo será sustar o crescimento da produção, mais desemprego e mais matança de empresas nacionais. Tudo conforme o script do subdesenvolvimento programado para o Brasil.

* Adriano Benayon: Doutor em Economia, professor da Universidade de Brasília (UnB). Autor de “Globalização versus Desenvolvimento” (Editora Escrituras).

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Uma resposta to “O que significa “investment grade”?”

  1. […] da SEMANA O que significa “investment grade”?13 Maio, 2008Imprensa insiste que dinheiro foi desviado do BNDES12 Maio, 2008Em descompasso com a […]

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