Blog do Desemprego Zero

Rodada Adiada

Posted by Beatriz Diniz em 14 maio, 2008

A última reunião da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), não deve acontecer em 23 de maio, em Genebra. Tampouco ocorrerá neste ano. Há três motivos básicos para o atraso: perca de força dos países desenvolvidos, devido à crise global dos alimentos; a disputa do evento com a Eurocopa e; possibilidade da substituição dos negociadores americanos ser um democrata.

Por Luciana Sergeiro

Publicado em:  Carta Capital

Por: Márcia Pinheiro

A última reunião da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC), não deve acontecer em 23 de maio, em Genebra (Suíça), conforme agendado. Tampouco ocorrerá neste ano. Esta é a avaliação da maioria dos técnicos que trabalham no documento final do acordo, para que tudo esteja pronto quando os ministros de Estado se reunirem.

Há três motivos básicos para o atraso. Com a crise global dos alimentos, perderam força os países desenvolvidos que dependem dos produtos exportados pelos emergentes. O jogo está mudando na OMC. Não há consenso entre os 151 integrantes da organização em relação à redução das tarifas de exportação. Nos discursos, a União Européia e os Estados Unidos acenam com a queda substancial dos subsídios agrícolas que praticam. Em troca, querem a abertura dos mercados emergentes ao setor industrial e de serviços. Há um claro impasse.

Se a reunião ocorrer em maio, não há hipótese de acontecer em junho. O evento teria de disputar espaço com a Eurocopa, o torneio de seleções intercontinentais que será sediado por Suíça e Áustria. Genebra é uma cidade pequena, de 180 mil habitantes, e todos os hotéis estão lotados para o campeonato de futebol.

Por último, e mais importante, há grande chance de os atuais negociadores norte-americanos serem substituídos ante a enorme possibilidade de um democrata, Barack Obama ou Hillary Clinton, vencer as eleições presidenciais em novembro.

Oficialmente, os representantes dos Estados Unidos continuam a manter a pose. O embaixador do país na OMC, Peter Allgeier, insiste na tese de que, com a globalização, não há saídas além de mais abertura comercial. “O velho modelo de substituição de importações não mais funciona”, afirmou em seminário promovido pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung, em parceria com a OMC, em Genebra. Fez apologia dos processos de terceirização e deslocalização das indústrias para países onde a mão-de-obra, os impostos e as leis são menos rígidos. Allgeier foi representante comercial dos EUA entre 2001 e 2005 e é um homem de confiança de George Bush.

Segundo o embaixador, qualquer barreira é ineficiente, resulta em perda de tempo e dinheiro. E enfatizou que os países em desenvolvimento são relutantes em abrir o setor de serviços, principalmente telecomunicações e bancos. “A falta de tecnologia põe as economias em xeque”, disse. E citou a infra-estrutura e os marcos regulatórios como exemplos de riscos para a Ásia e o Brasil. Em troca de tal abertura, promete reduzir a tarifa máxima dos produtos agrícolas americanos de 58% para 10%. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, não teria dado declarações tão duras recentemente se a proposta dos EUA realmente fizesse sentido. Médias são enganosas e os tais 10% podem esconder altos subsídios para os alimentos, em muito responsáveis pela perda de incentivo da produção dos emergentes.

Em que pese o fato de o comércio de alimentos responder por apenas 8% das transações globais, o assunto dominou os debates do seminário. Anabel González, diretora da Divisão de Agricultura e Matérias-Primas da OMC, afirma que a atual escassez de alimentos roubou a cena dos outros conflitos de Doha. Para ela, houve uma mudança significativa no patamar de preços e essa realidade veio para ficar. González citou os argumentos conhecidos sobre a disparada do custo da comida. Do lado da oferta, houve questões climáticas a afetar as lavouras, o aumento significativo da cotação do petróleo, que encarece os alimentos pelo frete e fertilizantes, e a redução dos estoques de cereais, que aguçou o apetite dos especuladores nos mercados futuros do mundo inteiro. Quanto à demanda, mencionou os biocombustíveis, que estariam avançando sobre terras agriculturáveis, e o aumento do poder aquisitivo dos indianos e chineses. “Só o aumento da oferta resolveria a questão e um acordo na rodada atual daria segurança aos produtores para investir em alimentos”, afirmou.

Mesmo Allgeier admite o excesso de subsídios aos agricultores americanos. É o segundo maior volume financeiro, no mundo, que um governo concede ao campo, só perdendo para a União Européia. “O que estamos oferecendo em Doha beneficia muito mais os emergentes do que os países desenvolvidos”, afirmou. “Brasil e Argentina nos oferecem menos. Stiglitz está errado em sua análise”, disse. O embaixador norte-americano referiu-se às posições críticas do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, especialmente expressas no livro Fair Trade for All (Comércio Justo para Todos), no qual traça um retrato histórico de como os ricos sempre se beneficiaram de rodadas comerciais multilaterais.

À CartaCapital Allgeier afirmou ser um defensor da liberdade comercial e disse acreditar que a crise hipotecária americana foi um fato restrito ao mercado financeiro. Ou seja, não considera que liberalizações irrestritas gerem distorções e injustiças. Também desqualificou o fato de os Estados Unidos estarem perdendo empregos, e muitos, tanto por causa da crise do subprime como da fuga das indústrias para países asiáticos, especialmente as montadoras. Ele também se mostrou irritado com uma pergunta sobre o uso do milho para a produção do etanol nos EUA. “Não há qualquer relação com a alta dos preços dos alimentos”, afirmou.

Para Josep Bosch, da Divisão de Informação da OMC, é preciso fortalecer o papel do organismo para impedir que as potências econômicas imponham seus interesses. Na sua avaliação, o comércio é a parte mais visível da globalização, que marcha com rapidez, e o Gatt, o tratado que antecedeu a criação da OMC, não contemplava temas contemporâneos, como o setor de serviços e a propriedade intelectual. Segundo ele, ao contrário do que ocorre no Fundo Monetário Internacional (FMI), a contribuição financeira dos países integrantes não lhes dá maior poder. Os 40% que detém a União Européia, por exemplo, não implicam mais votos que um minúsculo país da África. “Quando, ao final de uma negociação, todos saem insatisfeitos, é o melhor dos mundos para a OMC, porque significa que houve um esforço conjunto e os envolvidos tiveram de abrir mão de alguns de seus interesses”, brinca Bosch.

A Rodada de Doha já se alonga por sete anos. Iniciada em 2001, era para ter sido concluída em 2005. Um acordo prévio prevê o fim dos subsídios agrícolas até 2013, mas o problema é definir como se dará o processo de transição. E saber o quanto a crise de falta de alimentos, que aumenta o poder de negociação dos emergentes produtores de comida, emperrará os compromissos das nações desenvolvidas em abrir seus mercados. Mais do que um tema econômico, o aumento da produção passou a ser também uma questão humanitária. 

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