Blog do Desemprego Zero

Fiz muitos gestos’

Posted by Beatriz Diniz em 16 maio, 2008

A ex-ministra, Marina Silva, em entrevista exclusiva para Carta Capital, esclarece alguns pontos importantes de sua gestão. A ex-ministra afirma que houve avanço no combate às práticas ilegais em sua gestão e que a luta continua, porque vai para o senado onde batalha há 16 anos para ser aprovada uma lei de acesso à biodiversidade. E há quase 12 tenta aprovar um fundo de desenvolvimento sustentável.

Em relação a sua carta de demissão, Marina Silva afirmou que muitas vezes quando uns ministros pedem demissão pessoalmente, isso pode levar a entender que estão querendo alguma coisa. Diz que fez vários gestos. ‘Na questão dos transgênicos, na questão da hidrelétrica do Madeira, da transposição do São Francisco”. Principalmente quando o desmatamento aumentou.

Por Katia Alves

Por Cynara Menezes

Publicado originalmente na Carta Capital

Marina Silva saiu do governo para criar um fato novo que fizesse a agenda ambiental do governo andar, depois de “muitos gestos” em que mostrou inconformidade, sem sucesso. Foi o que ela disse durante esta entrevista exclusiva em sua casa, em Brasília. Afirmou se sentir orgulhosa da atuação diante da pasta e se mostrou satisfeita com a nomeação de Carlos Minc, de quem foi aprendiz, como seu substituto.

“Se é uma honra para um mestre deixar um pupilo no lugar, é uma grande honra que, quando o pupilo saia, para substituí-lo seja preciso recorrer ao mestre”, avaliou. Segundo a ex-ministra, seria “reducionismo” atribuir sua demissão à indicação, pelo presidente Lula, de Mangabeira Unger ao cargo de coordenador do Plano da Amazônia Sustentável (PAS).

CartaCapital: Como a senhora está se sentindo, aliviada?

Marina Silva: Tranqüila.

CC: Tira um peso das costas deixar o governo depois de tantos embates?

MS: Olha, minha vida sempre foi feita de embates. Não posso dizer que é um peso fazer o que a gente acredita. Quando se faz as coisas com convicção, mesmo com dificuldades elas não são pesadas.

CC: A senhora falou que não sai se sentindo derrotada.

MS: Não foi exatamente assim. Falei que derrota e vitória são algo que se afirma no tempo. Olhando para a história, derrotados são aqueles que botaram Mandela na cadeia, que vilipendiaram Martin Luther King, que assassinaram Gandhi. Derrotados eticamente, humanamente, porque estavam na contramão da vida. Tudo que está a favor da vida é constitutivo da vitória, mesmo que não seja agora.

CC: Em que sua gestão avançou?

MS: O sistema se fortaleceu, o combate às práticas ilegais avançou. Havia verdadeiras quadrilhas atuando na Amazônia. O trabalho que a Polícia Federal fez, o doutor Paulo Lacerda, termos levado à cadeia 600 pessoas. Saímos de uma média de cerca de 140 operações do Ibama por ano para mais de 300 operações. Antes não se tinha um trabalho integrado com a Polícia Federal, com o Incra, com o Exército. Não havia um plano de combate ao desmatamento. Com ele, conseguimos uma redução de 59% nos últimos quatro anos. Aplicamos 4 bilhões em multas, desconstituímos 1,5 mil empresas criminosas, inibimos 66 mil propriedades de grilagem, criamos 24 milhões de hectares de unidades de conservação.

CC: Então sente orgulho de sua atuação?

MS: Sim, porque é um trabalho em co-autoria. É muito prazeroso ter a autoria de alguma coisa, mas é mais prazeroso ser co-autor porque, mesmo se não puder continuar, alguém irá. Esse foi um trabalho de co-autoria com minha equipe, com a sociedade, com a comunidade científica, formadores de opinião. Ninguém consegue desmontar 1,5 mil empresas e ficar de pé sem a sustentação política que a opinião pública está dando.

CC: Uma crítica feita à senhora era que se guiaria mais por critérios ideológicos do que técnicos…

MS: Mudar a turbina da hidrelétrica do Madeira de uma convencional para uma de bulbo, que diminuiu o lago em oito vezes, não é ideológico. É um avanço técnico. Por que vamos fazer um lago maior, com impacto ambiental negativo para os ecossistemas, para a saúde das pessoas, se temos tecnologia para fazer diferente? Por que vamos deixar de preservar as espécies de peixes fundamentais para a alimentação da Amazônia – e mesmo que fosse só pelo valor ontológico -, se temos tecnologia e conhecimento para isso? Se podemos fazer certo, por que vamos fazer equivocadamente? O custo de fazer errado sempre será maior do que fazer certo, mesmo que financeiramente possa até ser um pouco mais caro e usar um pouco mais de tempo. Ganhamos tempo e economizamos depois, ao não ter de corrigir o erro.

CC: Sai com a sensação de que poderia ter feito mais?

MS: Se eu achasse que já tinha feito tudo, com certeza me aposentaria agora, porque já tenho 50 anos. Sempre vai ter de fazer mais. Os que me antecederam fizeram muito, o que esteve a seu alcance. Eu fiz uma parte.

CC: O que estava a seu alcance, também?

MS: Sim. Não individualmente, mas das circunstâncias que tive de enfrentar durante o tempo que fiquei.

CC: A impressão que dá é que a senhora desistiu.

MS: Desistir seria continuar sem poder fazer. A vitória não é algo que a gente meça por aquilo que fez com as próprias mãos, mas como parte da solução. Nesse momento, sinto que parte da solução é sair, ir para o Senado.

CC: Para os brasileiros, ficou como se a senhora estivesse lá, dando murro em ponta de faca, e uma hora falou: “Chega”.

MS: Dar murro em ponta de faca eu dei minha vida toda. E quem disse que vai ser fácil no Senado? Estou batalhando para aprovar uma lei de acesso à biodiversidade há quase 16 anos. Há quase 12 tento aprovar um fundo de desenvolvimento sustentável. Muda o endereço, mas não muda o grau de empenho e dificuldade.

CC: No Senado, a senhora pretende fazer oposição à política ambiental do governo?

MS: Eu não fazia oposição nem na época do Fernando Henrique. Dava apoio às políticas corretas e boas do ministro Sarney Filho e do ministro José Carlos Carvalho, quanto mais as do Minc. Aprendi o bê-á-bá do ambientalismo com o Minc, com o Gabeira, o Fabio Feldman, o Alfredo Sirkis. Isso no tempo que a gente ouviu a palavra ecologia pela primeira vez, alguém perguntou para o Chico Mendes e ele disse, de brincadeira: “Sei lá, deve ser alguma coisa de comer…” Então, se é uma honra para um mestre deixar um pupilo no seu lugar, é uma grande honra que, quando o pupilo saia, para substituí-lo seja preciso recorrer ao mestre.

CC: Como fica a sua relação com o governo?

MS: Uma relação de interação madura, de respeito, porque não sou do tipo que faz oposição por oposição. Quando o presidente FHC propôs a CPMF e o ministro Adib Jatene fez um debate conosco, me convenci de que deveria votar a favor e votei. Durante 30 anos ajudei a construir o governo Lula, a chegar a esse projeto. Estou saindo para contribuir, para criar um novo momento.

CC: Mas os jornais já davam como perda para o governo a saída do seu suplente Sibá Machado, pelo fato de a senhora ser mais independente…

MS: E quem disse que a independência não é uma coisa boa?

CC: A senhora tem uma preocupação histórica. Não teme que sua saída seja explicada apenas por não aceitar que Mangabeira Unger tenha sido nomeado coordenador do PAS?

MS: Seria um reducionismo falar isso. As pessoas que conhecem meu trabalho sabem que fui eu quem sugeriu que o plano de combate ao desmatamento fosse coordenado, lá atrás, pelo ministro José Dirceu. De sorte que não se pode reduzir isso a uma pessoa. Não seria justo com o doutor Mangabeira, que foi nomeado recentemente. Ainda nem tive tempo de conhecer seu trabalho dentro do governo.

CC: Ele está preparado para assumir esse cargo?

MS: Não tenho elementos para julgar nem seria elegante da minha parte.

CC: O presidente Lula disse que a senhora era a “mãe do PAS”, mas preferiu dar o bebê para uma babá cuidar…

MS: Eu não qualificaria assim, mas poderia dizer que me evoca a história do rei Salomão. Então, prefiro ver a criança viva, no colo do ministro Minc, que vai ter uma grande responsabilidade em relação a tudo isso. Espero que ele e o avô (Lula) possam cuidar muito bem. E cuidar bem significa não haver retrocesso em relação às conquistas fantásticas que tivemos até aqui.

CC: A senhora falou que tem uma amizade com o Lula de 30 anos, mais ou menos o mesmo tempo que ele tem de casado com dona Marisa. Por que não o procurou pessoalmente para se demitir, preferiu mandar uma carta?

MS: Existem várias maneiras de se comunicar algo a alguém. Uma poderia ter sido a fala. Mas muitas vezes quando os ministros vão dizer ‘olha, estou pensando em sair’, passa a idéia de que estão querendo criar algum tipo de chantagem, pedir algum tipo de afago. Você sabe quando a sua contribuição é o gesto, e eu fiz muitos gestos. Na questão dos transgênicos, na questão da hidrelétrica do Madeira, da transposição do São Francisco. Agora, quando o desmatamento aumentou, fiz vários gestos. Nesse momento, o que me restou foi o ato. E o ato se concretizou na carta.

CC: Ou seja, a senhora sai por inconformidade com a paralisação da agenda ambiental.

MS: Não sei se era inconformidade, mas meu compromisso é que a agenda ande. No meu entendimento, se eu permanecesse ela pararia de andar. Espero profundamente que com este ato se criem novos fatos. Já é um fato o presidente Lula ter dito que a agenda não vai mudar. O outro fato é podermos ver em que vai ampliar.

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