Blog do Desemprego Zero

Desafios para o desenvolvimento do Brasil: as reformas sociais, a queda nos juros e os investimentos para produção

Posted by Beatriz Diniz em 19 maio, 2008

O Brasil precisa baixar as taxas de juros, necessita de reformas estruturais, deve ir atrás de investimentos produtivos, assumir o crescimento como prioridade, e levar a serio o desenvolvimento socioambiental. Esses são os desafios que o Brasil precisa encarar para seu crescimento pleno.

Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Agência Carta Maior

Por: Antonio Biondi

A opinião dos sindicalistas e pesquisadores no especial “Trabalho e Renda” é unânime: o país precisa assumir o crescimento como prioridade efetiva e contínua; questões sociais, ambientais e ligadas a o quê e como produzir também surgem com força nas análises.

Os juros precisam baixar. As reformas estruturais de que o país carece são as sociais – e não as de caráter liberal. Os investimento que o Brasil deve buscar atrair são os produtivos, e não os capitais meramente especulativos. O país tem que assumir o crescimento como uma prioridade – não efemêra, temerosa e a qualquer custo, mas contínua, gradativa e qualificada. E o desenvolvimento socioambientalmente sustentável não deve ser relegado ao ostracismo das idéias ou ao passado. Ele é futuro. A receita não é de Carta Maior, mas dos entrevistados ouvidos no especial “Trabalho e Renda”.

Para Sérgio Nobre, presidente eleito do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (toma posse nesta segunda, 19), o rumo atual deve ser mantido em sua essência. “Se programas e políticas como o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a recuperação e valorização do salário mínimo, os juros em queda, o estímulo aos financiamentos populares e crédito consignado, etc, seguirem no atual e positivo ritmo, assim como as políticas de inclusão social e distribuição de renda, como o Bolsa Família, o Brasil tende a viver um longo ciclo de desenvolvimento econômico e social”.

Márcio Pochmann, presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), concedeu entrevista exclusiva à Carta Maior em seu gabinete em Brasília – a íntegra da entrevista vai ao ar nesta quarta (21). Pochmann frisa a importância de a economia do país seguir crescendo. Para o presidente do órgão do governo federal, o crescimento permite que todos melhorem sua situação, mas o modelo atual carece de ajustes. “Praticamente todos ganharam. Só que os ganhos não ocorrem na mesma velocidade”, ressalva ele. “E a melhor maneira para reduzir a discrepância nas velocidades da expansão da riqueza, na absorção da riqueza, a meu modo de ver vem acompanhado de reformas sociais, entre elas a reforma tributária e a reforma agrária”.

Estudo do Ipea apresentado por Pochmann ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) na quinta-feira passada (15) demonstra que os 10% mais pobres da população brasileira pagam uma carga tributária 44% maior que a dos 10% mais ricos. Considerando-se a tributação direta e indireta, a carga tributária sobre a parcela mais pobre da população chega a 32,8% da renda das famílias, ao passo que a carga que incide sobre os mais ricos fica em 22,7% da renda familiar. O estudo é baseado em dados de 2002 e 2003.

O presidente do Ipea também destaca a necessidade de adoção de uma política industrial como elemento estruturante do futuro do país. A defesa de Pochmann quanto à medida se deu algumas semanas antes do lançamento do Plano de Desenvolvimento Produtivo – que teve contribuição decisiva do Ipea. Segundo Pochmann, um dos objetivos centrais da nova política é a de enriquecer as cadeias produtivas. “O Brasil não pode produzir, exportar bens primários apenas” argumenta. “O Brasil precisa exportar bens que passam por processos de beneficiamento, que permitem maior produtividade, possibilitam pagar salários maiores, e geram, por conseqüência, maior renda neste sentido”.

O professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Waldir Quadros analisou com sobriedade as mudanças ocorridas na composição social das classes brasileiras. Quadros reconhece a importância do crescimento da classe C mas destaca que as classes que ocupam os andares mais altos da pirâmide social brasileira se encontram hoje estagnadas – e até abaixo, em termos percentuais, do que foram um dia. Quadros faz coro com Pochmann quanto à importância de se gerar, gradativamente, empregos que gerem mais renda. “O ideal seria o tamanho das classes A e B subir. E as classes C e D subirem ainda mais”, de modo que a diminuição das desigualdades se dê em termos de empregos cada vez melhores. Para Quadros, tão importante quanto isso é o Brasil melhorar a situação de vida de todas as pessoas da faixa de renda que marca a classe E. “A existência da classe E é socialmente intolerável. Em país civilizado, não pode existir classe E. Trata-se da miséria absoluta”, destaca.

Harmonia na produção
Em relação ao crescimento da classe C no país nos últimos anos, o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Artur Henrique, entende o processo não só como extremamente positivo – mas avalia que o Brasil precisa aproveitar o atual contexto para ir além. “O que temos é uma classe pobre que finalmente começa a consumir, que pode participar do mercado, que começa a ser incluída. Precisamos é ter aumento da produção para atender a esse aumento do crédito e do consumo”. O professor da Unicamp complementa a análise de Henrique: “temos de harmonizar a expansão do crédito junto ao crescimento da produção e da renda”. Caso só o crédito se expanda, Quadros explica que a inadimplência tende a crescer, bem como pode haver superaquecimento do consumo. “E aí tanto sai pela importação quanto pela inflação”, explica. Para Quadros, outras medidas importantes a serem adotadas pelo governo, a fim de avançar no crescimento econômico com diminuição da desigualdade e da pobreza diz respeito a “diminuir a renda financeira da especulação, a renda financeira dos ricos”.

Para Artur Henrique, o aumento da produção e a diminuição da renda financeira dos ricos possui alvo certo: é necessário baixar as taxas de juro praticadas no país – que segue atraindo capitais especulativos para o Brasil.

Os juros em xeque
Artur Henrique remonta aos idos do Milagre Econômico, no auge da ditadura militar – e de seu modelo de desenvolvimento concentrador da renda – para embasar seus argumentos. “Nosso pais já cresceu 10%, 12% até, mas com concentração de renda e sem democracia”, recorda. “Agora, temos um crescimento com possibilidade de distribuição, de valorização do trabalho, de superação de desigualdades históricas”. O presidente da CUT não deixa de registrar que, hoje, diversos setores já estão sendo beneficiados, “como é o caso dos trabalhadores da construção civil, os metalúrgicos, da própria agricultura”. Para ele, “há condicões para se construir o crescimento sustentável que todo mundo espera” – e que, segundo ele, será defendido pela CUT: “com respeito ao meio ambiente, valorização do trabalho e distribuição de renda”.

A visão do dirigente da Intersindical Edson Carneiro quanto ao momento da economia e do trabalho do Brasil não é tão otimista. Também conhecido por Índio, o dirigente da Intersindical defende que “nada mudará sem mudar a política econômica, destinando os recursos da União para investimentos massivos em políticas sociais, na infra-estrutura e na geração de emprego e renda, ao invés dessa fixação dos tecnocratas do governo pelo superávit primário”. Em sua avaliação, “sem mudar a política monetária restritiva não haverá desenvolvimento econômico com distribuição de renda”.

A diminuição dos juros é ponto comum das análises dos dois dirigentes sindicais. Questão que o presidente da CUT resume bem, ao colocar que “reduzir a taxa de juros é um objetivo dos trabalhadores e dos setores comprometidos com o crescimento do país”.

Cabe a Márcio Pochmann registrar, com todas as letras, do que se está falando quando se debate as taxas de juros praticadas no Brasil, especialmente a taxa básica da economia, a Selic, definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. “O que está em jogo é o debate sobre a capacidade de o país crescer”, afirma, acrescentando que existe uma polarização no interior do governo, que se expressa na polarização da sociedade, que coloca em pólos opostos “aqueles que defendem estritamente a estabilidade, e aqueles que defendem estabilidade com crescimento”.

Para Pochmann, a principal diferença do segundo governo Lula em relação ao primeiro pode ser entendida como o compromisso com o crescimento da economia em 5% ao ano. Segundo seus cálculos, “se de fato conseguirmos fazer isso em 2008, 2009 e 2010, nós teremos nesses três anos a geração de 7,5 milhões de empregos, o que certamente será muito importante não apenas para absrover aqueles que estão chegando ao mercado de trabalho, mas também reduzir aqueles que estão desempregados há mais tempo”. Na análise do presidente do Ipea, este cenário permitirá ao Brasil chegar a 2011 com uma taxa de desemprego equivalente à cerca da metade do que temos hoje.

Por um lado, aponta Pochmann, olhando para o passado brasileiro, “voltaremos a uma situação econômico e social próxima àquela que vivemos no final dos anos 70 e início dos anos 80, em termos de desemprego e remuneração”. Por outro, diz ele, olhando para o futuro, tal cenário “nos abre uma oportunidade praticamente inédita para que as desigualdades sociais e a pobreza, assim como as discrepâncias que hoje existem em termos de competição e de produtividade do Brasil em relação ao mundo, sejam muito menores do que as atualmente verificadas”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: