Blog do Desemprego Zero

Da esquerda ao Grupo Positivo

Posted by Beatriz Diniz em 24 maio, 2008

Entrevista, concedida à Gazeta Mercantil, com o Diretor do Conselho de Administração do Grupo Positivo, o ex-militante esquerdista e antigo membro da Política Operária, o empresário Oriovisto Guimarães, engenheiro e economista.

O Grupo Positivo é atualmente um dos mais importantes grupos nacionais no ramo de educação e fabricação de hardware. O Grupo detém uma receita invejável e apresenta ganhos de faturamento cada vez maiores.

Nessa entrevista, Guimarães fala sobre os novos e audaciosos projetos do Grupo Positivo e também sobre a sua trajetória pessoal de militante de esquerda a empresário bem-sucedido, do “muro interior” que derrubou bem antes da queda do Muro de Berlim…

* Por Elizabeth Cardoso, editora e coordenadora de conteúdo

Publicado originalmente na Gazeta Mercantil

Por Norberto Staviski

O Grupo Positivo é um fenômeno. Entre 2003 e 2007, o faturamento foi multiplicado por cinco, passando de R$ 550 milhões para R$ 2,7 bilhões em 2007. O ponto de partida desta estratégia vencedora foi a educação. O grupo nasceu em Curitiba, em 1972, pela união de oito professores que resolveram fundar um cursinho pré-vestibular. Destes, cinco continuam na empresa e um aposentou-se. O comandante desta trajetória é o engenheiro e economista Oriovisto Guimarães, hoje à frente do Conselho de Administração. Guimarães também é o mentor da estratégia empresarial que levou O Positivo a ser uma das mais importantes e maiores instituições de ensino do país, com um faturamento de R$ 700 milhões só na área de educação. Além da área educacional, o grupo é o maior fabricante de computadores do País, com mais de 1 milhão de unidades vendidas em 2007 e proprietário de uma das gráficas mais importantes do Sul do país. Quem vê o empresário hoje nem imagina que, no passado, teve posições marcadamente de esquerda. Foi membro da Polop (Política Operária) e chegou a ser preso no famoso congresso estudantil de Ibiúna, no auge da ditadura militar, em 1968. “Consegui quebrar o meu muro interior muito antes da queda do Muro de Berlim”, diz o empresário.

Gazeta Mercantil – O Grupo Positivo montou a Escola de Negócios. Como vai funcionar?

A Escola nasce dos mais de 36 anos de experiências que o Grupo Positivo tem nas áreas educacional e empresarial. O grupo Positivo começou com educação básica, mas depois entrou em áreas 100% empresariais. Este é caso da editora, indústria gráfica, computadores e do desenvolvimento de softwares, que também exportamos para outros países. Na área educacional, temos as próprias escolas, que são a origem de tudo, e que vão desde a educação infantil até a universidade, que foi reconhecida pelo Ministério da Educação neste início do ano. Foi o coroamento desta trajetória. Os cursos de administração de empresas, economia e ciências contábeis já temos há vários anos. O curso de Administração está conosco há 23 anos. Quando nós conseguimos o doutorado em administração com o reconhecimento da Universidade aí nós entendemos que tínhamos as condições perfeitas para esta Escola de Negócios. Tínhamos de um lado a academia com um nível de pesquisa em todos os níveis, mestrado e doutorado e do outro lado a graduação com todos os cursos e o ambiente universitário e a experiência prática das empresas do grupo. Essa foi a fonte de inspiração: é o resultado de um processo de sucesso tanto na área empresarial como educacional. Esperamos um mercado para graduação de 3.500 alunos e mais 1 mil alunos na área de pós-graduação, ou seja, 4.500 alunos. Já começamos com 2.100 alunos na graduação e 600 na pós-graduação.

Gazeta Mercantil – É o caso de aplicar o conceito de formação de trainees ainda dentro da universidade, ao mesmo tempo em que faz o curso?

É perigosa a simplificação. Tem dois aspectos fundamentais: um é o aspecto da academia e outro é o aspecto prático. Se ficar só no trainee fica só no prático e não é isso. Você tem uma universidade que ensina ciência, ensina a raciocinar e o rigor da lógica. A Escola de Negócios vai trabalhar em três vertentes. Se você é empreendedor, por exemplo, tem um primeiro ano com núcleo comum com matemática, noções de administração, contabilidade e economia. Um currículo básico que depois fica customizado. Dentro da Escola de Negócios há uma central de carreiras com as pessoas dão assistência para os alunos. Se ele tem uma vertente para ser empreendedor dirige-se para este caminho. Se quiser ser executivo dirige para outro caminho. Se preferir a área de pesquisa é só fazer mestrado e doutorado e ir para a vida acadêmica.

Gazeta Mercantil – No Brasil já existe algo parecido?

Nós temos uma característica única de sucesso na empresa e na educação, mas somos uma universidade e morro de medo que a academia pense que nós não estamos fazendo academia. Estamos querendo enriquecer a universidade ligando a teoria com a prática.

Gazeta Mercantil – Como senhor vê a situação da educação brasileira?

Não acho que a educação no Brasil está piorando. Acho que está melhorando. Sou um otimista. Só que as necessidades com uma economia em crescimento ficaram escancaradas. Nós temos um atraso histórico na educação e isso vem desde a época do descobrimento. Começa a ter um esforço civilizatório a partir de 1800. Se você vê a história da educação brasileira é uma tristeza. O Brasil conta a universidade em décadas enquanto que Harvard tem 400 anos e no resto do mundo se contam em séculos. Temos um atraso histórico pelo processo de colonização e formação do País. Mas não vejo a educação no Brasil andando para trás. Vejo andando para frente. Há um atraso histórico monumental e isso não será recuperado do dia para noite. Há 10 anos, o governo Fernando Henrique Cardoso conseguiu colocar todas as crianças na escola. Resolvemos o problema quantitativo, mas ainda não resolvemos o problema qualitativo com o qual estamos batendo de frente agora porque não basta só ter as crianças na escola. A pessoa precisa saber ler, escrever, fazer contas, operar computador, pensar, ter disciplina, ter valores, senão está morto. E isso você não faz sem educação. Continuamos evoluindo e o fato da educação estar sendo tão discutida e tão prestigiada na nossa imprensa e de uma maneira nova é prova disso.

Gazeta Mercantil – O brasileiro não estuda pouco perto dos outros países?

No Japão há uma carga horária um pouco maior, mas não acho que isso faça diferença. O prestigiamento da educação em casa é o que faz a diferença. O número de horas que a família faz isso. Nos Estados Unidos, que tem pesquisa para tudo, fizeram uma pesquisa sobre porque os asiáticos que migram para lá se saem tão melhor que os alunos americanos. O resultado foi que toda noite em casa eles sentam ao redor da mesa: pai, mãe e os meninos com a tarefa, sem televisão e sob supervisão materna e paterna. Coisa que absolutamente não tem na nova geração norte-americana de quem alguém disse que já viveu o sonho antes de ter sonhado, diferente das gerações anteriores que tinham de sonhar primeiro para conquistar depois.

Gazeta Mercantil – Como uma pessoa que começou a carreira com uma visão de esquerda, fazendo contestações, conseguiu virar um empresário de sucesso?

Na Rússia hoje há pessoas que nasceram e viveram sob o socialismo e são grandes empresários. Na China igualmente. E vai ter em Cuba daqui a pouco. Acho que a questão de empreendedorismo, a vontade de fazer as coisas é anterior ao fato de ser empresário ou político. Sempre tive este espírito de querer liderar as coisas. Fui preso em Ibiúna e essas coisas. Sempre estava na linha de frente das coisas em que acreditasse. Se fosse pela religião, provavelmente seria pregador. Meu pai fez o caminho inverso: era pregador e virou comuna no final da vida. O mundo foi mudando, o muro de Berlim caiu. Alguns amigos me cobram que virei capitalista. Não fui eu que virei. Quebrei meu muro anterior um pouco antes. Acredito na igualdade de oportunidades, mas não acredito na igualdade de resultados. Prezo muito a coisa da liberdade. Fui ser empresário porque nunca gostei da idéia de ter um patrão.

Gazeta Mercantil – Quais são os novos planos do Grupo Positivo?

A menina dos olhos continua sendo educação. Particularmente sou apaixonado por educação. A Universidade Positivo, o lançamento do Teatro, o centro de Eventos que inauguramos agora. Nós só já atingimos a maturidade e conseguimos o reconhecimento da universidade, em janeiro deste ano, depois de 10 anos em que ninguém da área privada conseguia isso. É engraçado. O governo quando cria uma universidade pública não tem prédio, não tem aluno, não tem professor de horário integral, não tem laboratório, não tem nada. Faz um decreto e cria. E aí tem cinco a dez anos para achar os alunos, contratar os professores e construir laboratórios. Com a iniciativa privada é o oposto. Primeiro você é obrigado a fazer tudo e aí mandam 500 fiscais do MEC para fazer visitas e quando não têm mais como dizer não, dizem: está bom, você é uma universidade. Você é reconhecido depois de ser. Não reclamo, acho até bom porque evita a picaretagem. Devia fechar algumas que conseguiram sem merecimento.

Gazeta Mercantil – O que representa para o grupo ter uma universidade?

A universidade é um sonho muito grande e tem implicações muito sérias para o grupo todo. É onde você tem pesquisa, quase 40% dos professores em tempo integral, não só dando aulas mais buscando conhecimento novo, a questão do mestrado, doutorado, a Escola de Negócios que é um sonho importante e só se situa dentro de um contexto de universidade porque termos todos os cursos no mesmo campus. Veja a diferença para uma faculdade isolada de administração de empresas. Por melhor que ela seja e têm algumas muito boas, você tem uma visão restrita do mundo, é o enfoque só de administração. Numa universidade a biblioteca tem livros de marketing, direito, medicina, biologia. Hoje mais do que nunca você precisa ter visão holística do mundo. Você vai atuar num mundo complexo. Não adianta saber fazer planilha, balanços. Tem de saber muito mais do que isso. Tem de conhecer de psicologia, leis, relações humanas. Por que fizemos um teatro? Essa coisa da cultura é importantíssima, não basta ficar um burocrata do conhecimento. Tem de viajar na área da cultura, entrosamento com as empresas. Por que construímos o centro de eventos? Porque lá só entram coisas ligadas a cultura, tecnologia e a congressos científicos. O campus, com mais de 20 alqueires, é quase uma cidade só dedicada ao conhecimento.

Gazeta Mercantil – O Positivo teve origem e sempre cresceu à sombra da área educacional. Isso continua?

O grupo tem uma rede de mais de 3 mil escolas que usam o material didático com o qual a gente treina professores. A universidade continua dando suporte a isso. Passamos a vender a tecnologia que desenvolvemos e usávamos, para outras escolas. Estamos atuando fortemente na educação pública hoje, vendendo material e treinando professores em prefeituras. Isso está dando resultados muito interessantes e logo o Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (IDEB) vai medir o que está acontecendo nestas escolas. Estamos há dois anos e os primeiros resultados vão surgir já, já. Temos hoje mais de 200 municípios envolvidos em todo o Brasil. Está havendo uma certa conscientização dos políticos. Os prefeitos estão percebendo que, se a escola melhorar na gestão deles, a chance de serem reeleitos é muito maior porque a população cobra mesmo.

Gazeta Mercantil – Como o senhor vê o futuro para o conglomerado?

Não vamos entrar em áreas novas. Iremos aprofundar o que fazemos na educação com a Universidade, Escola de Negócios e cultura. Na área de informática estamos verticalizando a produção. Já produzimos placas-mãe e monitores LCD. Iremos inaugurar uma fábrica em Manaus e outra em Ilhéus. As placas-mãe são produzidas em Curitiba e já atendem quase toda a nossa demanda. Os monitores começaremos a produzir 50 mil mensais em Ilhéus numa unidade que compramos e reformamos. Em Manaus, em junho, vamos fazer computadores e produzir o conversor da HDTV.

Gazeta Mercantil – E o projeto do computador de 100 dólares?

O Nicholas Negroponte começou no Massachusetts Institute of Technology, nos EUA, a falar num computador que todos pudessem usar e custasse 100 dólares. A imprensa comprou isso e o mundo inteiro começou a acreditar e a falar sobre isso. Só que o Negroponte nunca fez. Não existe e não tem no mundo. É uma impossibilidade técnica. Ele veio aqui, concorreu e perdeu. Ganhamos a concorrência do governo com o preço ao redor de 300 dólares. O governo ficou decepcionado. Agora a tecnologia tem evoluído todo o dia. Vamos lançar um produto que irá matar o Palm e faz tudo o que computador faz por R$ 999,00.

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