Blog do Desemprego Zero

BOLETIM SEMANAL DO BLOG DO DESEMPREGO ZERO

Posted by Beatriz Diniz em 27 maio, 2008

n.12, ano 1 – 21/05/2008 a 27/05/2008

Destaques da Semana no Blog

1. Economia

SWAP CAMBIAL REVERSO: mais um sofisticado instrumento derivativo criado pelo bacen para encher o bolso das instituições financeiras, por Léo Nunes

Os custos da “independência” do Banco Central

2. Desenvolvimento

João Sicsú, Diretor do IPEA, apresenta proposta de desenvolvimento e modelo macroeconômico para o Brasil

Resistências ambientais às hidroelétricas e o futuro do setor elétrico brasileiro

3. Política

Semelhanças e diferenças entre os governos Lula e FHC

A celebração da irrelevância

4. Internacional

A ópera, a guerra e a ressurreição russa

O DESATINO DA MOEDA ÚNICA NA AMÉRICA DO SUL

Economia

SWAP CAMBIAL REVERSO: mais um sofisticado instrumento derivativo criado pelo bacen para encher o bolso das instituições financeiras, por Léo Nunes

Escrito por Leonardo Nunes em 21 Maio, 2008

RIVE GAUCHE

Léo Nunes – Paris – Os chamados instrumentos derivativos têm sido cada vez mais utilizados como armas de política cambial e também como formas não-convencionais de transferência de renda para as instituições financeiras. Os derivativos são conhecidos pela sua obliqüidade e, por tal razão, são inacessíveis à maior parte das pessoas comuns. Neste texto, explicaremos sucintamente o funcionamento do swap cambial reverso, que é o principal instrumento derivativo utilizado pela autoridade monetária para intervenção no mercado de câmbio. Em seguida, mostraremos como este mecanismo tornou-se um importante instrumento para encher os cofres das instituições financeiras.

O swap nada mais é do que uma operação de troca. No mercado de derivativos, por exemplo, dois agentes, que possuem ativos diferentes, podem trocar o rendimento dos mesmos numa data futura previamente acordada. No caso do swap cambial reverso (1), o governo paga, numa data futura, uma taxa de juros (o certificado de depósito interbancário – CDI) e recebe em troca a variação do câmbio, no caso de uma desvalorização do Real. Caso haja valorização, o Banco Central paga o CDI e a apreciação da taxa de câmbio.

Mas por que a autoridade monetária faria tal sandice? A resposta é razoavelmente simples. Ao vender swap cambial reverso, o governo aumenta o preço do dólar futuro, pois é como se “apostasse” na desvalorização do Real. Por arbitragem, o preço do dólar spot seria pressionado para cima e a apreciação da taxa de câmbio seria evitada. Entretanto, a autoridade monetária não tem conseguido sucesso com tal instrumento.

Como é sabido, uma operação de derivativos só ocorre quando há divergência de opiniões, ou seja, um agente só troca seu rendimento por outro ativo se achar o segundo mais atraente. No caso do swap cambial reverso, a operação só ocorre porque alguém, a despeito de toda a expectativa do mercado no sentido da apreciação da taxa de câmbio, devido à absurda política de juros, aposta na depreciação do Real. E este alguém é exatamente o Banco Central. Portanto, enquanto a enorme maioria dos agentes aposta na apreciação da moeda doméstica, apenas a autoridade monetária segue no sentido contrário, sancionando as operações.

Desta forma, as instituições financeiras ganham a taxa de juros, que já é alta, adicionada da apreciação cambial no período. O Banco Central, por sua vez, transfere renda a estes agentes, sem sequer atingir o objetivo de evitar a apreciação do câmbio. Segundo o competente jornalista Rogério Lessa (clique aqui para ler reportagem), o Bacen desembolsou R$ 47 bilhões relativos apenas à apreciação do câmbio em 2007.

Só para se ter uma idéia, apenas esta rubrica representa quase metade dos gastos do governo com Previdência, mais do que três vezes o valor utilizado para programas assistenciais e do valor utilizado nas obras do PAC. Por conseguinte, a luta contra o rentismo atingiu um estágio inimaginável, na medida em que o sistema financeiro tem utilizado sofisticados instrumentos de derivativos, obtusos para a maioria dos cidadãos e sob justificativa “científica”, para criar mais um canal de transferência de renda para a elite rentista.

(1) O nome advém do swap cambial, que era um instrumento utilizado quando havia tendência à desvalorização do Real. Esta operação era o oposto do swap cambial reverso.

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

Clique aqui para ler nosso manifesto.

Os custos da “independência” do Banco Central

Escrito por Rodrigo Medeiros em 27 Maio, 2008

Rodrigo L. Medeiros *

Entre as máximas da finança ortodoxa, seguramente nenhuma é mais anti-social que o fetiche da liquidez, a doutrina que diz ser uma das virtudes positivas das instituições investidoras concentrar seus recursos na posse de valores ‘líquidos’. A finalidade social do investimento bem orientado deveria ser o domínio das forças obscuras do tempo e da ignorância que rodeiam o nosso futuro. Não há evidência clara que a política de investimento socialmente mais vantajosa coincida com a mais lucrativa (KEYNES, 1982, Capítulo 12, V) [I].

O Banco Central do Brasil, em seu relatório de mercado, o Boletim Focus, de 23 de maio de 2008, aponta no sentido de déficits nas transações correntes para 2008 e 2009. Além disso, ele aponta também no sentido do viés de alta para a taxa básica de juros, a Selic: 13,50% a.a. para o final de 2008.

Não é preciso muito esforço para se perceber quais os efeitos negativos reais na economia brasileira. Câmbio valorizado acima do diferencial de produtividade do Brasil em relação aos seus principais parceiros comerciais só pode mesmo gerar perda de competitividade e desinvestimento [II]. A elevação dos juros impacta na formação bruta de capital (investimento produtivo), que tem girado abaixo dos 18% do PIB brasileiro. Abaixo, portanto, dos 25% necessários para que se ingresse em um ciclo virtuoso de crescimento sustentado.

Investimentos produtivos são contidos pelo viés de alta dos juros e, conseqüentemente, a precarização das relações de trabalho (desemprego mais subemprego), hoje realidade para 49% da população economicamente ativa brasileira, não é combatida de forma eficaz [III]. O governo do presidente Lula, por sua vez, aposta na nova política industrial para compensar o pesadelo que é a administração da política monetária vigente. Seria melhor se o bom senso prevalecesse.

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Desenvolvimento

João Sicsú, Diretor do IPEA, apresenta proposta de desenvolvimento e modelo macroeconômico para o Brasil

Escrito por Imprensa em 24 Maio, 2008

João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do IPEA, produziu um esboço inicial do que seria um projeto de desenvolvimento para o país. Embora um plano dessa natureza envolva uma vasta gama de áreas do conhecimento, Sicsú foca-se em duas delas: a necessidade de o desenvolvimento ser fruto da mobilização da sociedade e que diretriz macroeconômica seria favorável a uma mudança de rumo para o país.

Sicsú critica o discurso neoliberal de desmantelamento do Estado produtor e investidor e defende uma política que priorize o desenvolvimento através da adoção de um câmbio competitivo, juros baixos, contenção da entrada de capitais especulativos e políticas de geração de emprego, tudo isso conduzido mediante uma ativa participação do Estado na economia. Os gastos públicos devem focar a construção de infra-estrutura pública, que promove a geração de empregos e aumenta o produto do país, e não ser despendido em pagamento de juros da dívida que apenas enriquecem ainda mais as elites em detrimento do desenvolvimento do país.

A sociedade brasileira não tolera mais o estado de letargia diante do desenvolvimento mundial, que nunca nos alcança. Falta uma perspectiva nítida do futuro, que permita vislumbrar a possibilidade do desenvolvimento. A sociedade brada por essa perspectiva, almeja um projeto claro que lhe possibilite sonhar novamente, e uma vez mais, com um país desenvolvido e justo, que não tolhe, mas, ao contrário, gere, possibilidades aos seus cidadãos.

Uma vez que a proposta neoliberal fracassou, pois não conseguiu realizar o que prometera, ao contrário, apenas gerou mais degradação social e econômica, ao longo das últimas três décadas, abre-se o espaço para novas propostas. O desenvolvimentismo ressurge para preencher essa lacuna, mas precisa ser estruturado enquanto uma clara realidade social, apresentando propostas nítidas para o país. Sicsú pretende colaborar nesse processo de construção de um projeto de desenvolvimento nacional e essa pode ser considerada a pretensão do estudo que realizou e que publicamos integralmente mais abaixo.

Precedendo o trabalho de Sicsú, porém, postamos a seguir uma matéria que a Folha de S. Paulo publicou no domingo passado sobre tal proposta. Segue abaixo a matéria na íntegra.

* Por Elizabeth Cardoso, editora e coordenadora de conteúdo

Diretor do Ipea critica juro e câmbio e cobra Estado na economia

Publicado originalmente na Folha de São Paulo

Para João Sicsú, políticas monetária e cambial não combinam com estratégia de desenvolvimento de longo prazo e combate à inflação não deve se limitar ao BC

Por Janaina Lage, da sucursal do Rio

As políticas monetária e cambial atuais estão dissociadas, ao menos de forma explícita, de uma estratégia de desenvolvimento do país no longo prazo. Essa é uma das principais conclusões de um estudo elaborado pelo diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), João Sicsú, e que será divulgado nos próximos dias.

Na avaliação do economista, a receita de desenvolvimento para o país deveria ser baseada em juros baixos, maior presença do Estado e controle do capital especulativo (tanto por meio de juros mais baixos, que inibem a sua entrada, como por meio do estabelecimento de impostos).

Segundo Sicsú, o estudo é a primeira contribuição para o desafio da atual diretoria do instituto de pensar uma estratégia de desenvolvimento para o país.

O artigo “Planejamento estratégico do desenvolvimento e as políticas macroeconômicas” sugere a adoção de uma política cambial que favoreça o investimento e a industrialização, o que, na visão de Sicsú, requer uma taxa de câmbio competitiva para a produção e a exportação de bens manufaturados.

A taxa nesse patamar permitiria a realização de superávits comerciais maiores e serviria também como uma espécie de proteção contra crises cambiais de desvalorização rápida. A taxa de câmbio deve se manter flutuante, mas o Banco Central deveria efetuar compras e vendas de reservas de forma a manter a taxa em patamar competitivo e reduzir a volatilidade cambial.

O economista defende ainda mecanismos de desestímulo à entrada de capital especulativo. “Capitais financeiros que têm o mero objetivo de sua capitalização, sem que esse processo traga benefícios à produção ou ao investimento, não são bem-vindos. (…) O movimento dos capitais financeiros que buscam apenas a sua capitalização via movimentos especulativos e de arbitragem deve ser desestimulado.”

De acordo com as propostas contidas no estudo, o juro deveria ser fixado em patamar muito baixo, similar ao dos EUA. Se ele não for capaz de limitar movimentos especulativos de capital, Sicsú afirma que poderiam ser adotadas medidas adicionais, como a cobrança de impostos sobre a movimentação financeira internacional.

Banco Central

Em relação ao debate sobre o controle da inflação, Sicsú argumenta que a estabilidade de preços deveria ser um objetivo de todos os órgãos públicos e seu controle não deveria ser limitado ao Banco Central.

“Deixar somente o Banco Central responsável por tratar da estabilidade de preços é o mesmo que solicitar a um médico clínico-geral para solucionar ora um problema do coração, ora um problema de pele, ora um problema de estômago”, disse. Nesse caso, por exemplo, se a inflação fosse causada por questões de safra, caberia ao Ministério da Agricultura apontar soluções.

Sobre a política fiscal, Sicsú afirma que os gastos do governo deveriam priorizar os que geram emprego. “Por exemplo, reduzir o gasto público com o pagamento de serviço da dívida que não gera empregos e gastar mais em construção de infra-estrutura pública.”

Segundo ele, a administração fiscal deve ser capaz de estabelecer um sistema tributário progressivo e com carga compatível com a necessidade de financiamento do Estado.

O estudo conclui ainda que qualquer projeto de desenvolvimento para o país precisa contar com a participação da sociedade. “Deve se tornar um sonho da grande maioria da população”, disse.

Ele afirma ser necessária a criação de símbolos para mobilizar a população e menciona movimentos como “O Petróleo é Nosso”, as “Diretas Já” e os “Caras Pintadas”. Dessa forma, a estratégia de desenvolvimento não estaria vinculada a um líder, mas sim a um conjunto de idéias.

*****

Abaixo segue a íntegra do estudo de Sicsú

Planejamento Estratégico do Desenvolvimento e as Políticas Macroeconômicas

Por João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do IPEA

“Nenhuma questão me obcecou tanto como esta: porque eles encontraram o caminho certo, o do desenvolvimento, e nós o errado, o do subdesenvolvimento?” Celso Furtado

Introdução:

Grande parte da sociedade organizada não tolera mais a realidade brasileira de País não-desenvolvido, de País em que o cidadão comum não tem qualidade de vida e que muitos não têm sequer as condições mais básicas de sobrevivência. A intolerância está acentuada pela falta de perspectiva: estamos onde não desejamos e não sabemos para onde estamos caminhando. Muitos se envolvem em debates acalorados sobre problemas conjunturais: são tensas as discussões sobre a inflação, a alta taxa de juros e a valorização cambial. Contudo, as decisões de políticas macroeconômicas estão desassociadas, pelo menos de forma explícita, de uma estratégia de longo prazo, seja ela qual for: de construção de um País de bem-estar social ou de um País de economia primarizada com renda e patrimônio concentrados. O Governo atua, age, inaugura obras… tenta fazer o melhor, mas isso é pouco. O que precisamos é de um projeto de futuro para que possamos sonhar. E, também, para que possamos fazer os links entre ações presentes e o futuro desejado.

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Resistências ambientais às hidroelétricas e o futuro do setor elétrico brasileiro

Escrito por NOSSOS AUTORES em 26 Maio, 2008

5º. SEMINÁRIO – ENERGIA – Aguardando Publicação/2007

Data: 19 de maio 2006, das 15h às 19h – BNDES – Auditório Reginaldo Treiger

Presidente e Relator da Mesa:

  • João Lizardo Hermes de Araújo, Diretor do CEPEL

Expositores:

  • Dr. Celso Lucchesi – Petrobrás – Linhas Estratégicas de Ação da Petrobrás
  • Prof. Adilson de Oliveira – IE-UFRJ – Gás e Petróleo: Comentários sobre problemas e perspectivas
  • Dr. Maurício Tolmasquin – EPE – Plano Decenal de Energia
  • Dr. Roberto Pereira d’Araújo – COPPE – UFRJ – Resistências ambientais a hidroelétricas e possíveis alterações estruturais

Por Roberto Pereira d’Araújo

Para pensar o setor elétrico brasileiro, coloco uma questão inicial sobre sua peculiaridade: ele não é diferente porque é hidroelétrico. É diferente porque é um sistema de uma única e grande reserva hídrica compartilhada. E, quais são as conseqüências de ser um sistema de reserva compartilhada? Uma delas é a necessidade do preço da energia no mercado de curto prazo ser determinado por um modelo matemático e não por leis de oferta e procura.

Obrigatoriamente, sendo a reserva compartilhada e de grande porte, alguém tem que ser o “gerente do estoque” e, sendo a entrada de energia aleatória, tem-se que estimar o custo futuro de atendimento, pois o estoque guarda água para ser usada no futuro. Para fazê-lo, o “gerente” adota parâmetros e simula como será a gestão da reserva nesse futuro. Como uma das possibilidades futuras é a falta de energia, é preciso assumir um custo da falta de energia elétrica. Alguém pode imaginar algo mais polêmico do que o custo da falta da energia elétrica? Isso dá uma idéia das dificuldades inerentes a um sistema de gestão de reserva compartilhada.

O entendimento de um sistema de reserva hidráulica quando tratamos de sistemas energéticos é muito polêmico. Gostaria de dar um exemplo: Certa vez, em um congresso fora do Brasil, fiz uma comparação do sistema brasileiro com outro sistema de outro país.  Destaco que só conheço um sistema parecido com o brasileiro, o da Hydro Quebec, no Canadá. Mostrei características desse sistema de grandes reservatórios e expus que essa empresa, apesar de estatal, teve bons resultados: a tarifa é baixa, o retorno de capital é de 13%, a empresa se autofinancia em 60% e a satisfação do consumidor está em 96%. Quando eu terminei a palestra, um engenheiro da Hydro-Quebec da platéia veio conversar comigo. Confesso que a primeira coisa que pensei foi ter cometido algum erro, apesar de ter a certeza de que os dados estavam corretos pois vieram do relatório da própria HydroQuebec. Entretanto, o meu interlocutor, com certo constrangimento, veio me explicar como a empresa tinha conseguido resultados tão bons.

Segundo ele, nos últimos anos a empresa canadense, que tem conexão com os estados norte-americanos vizinhos, alcançara um lucro extraordinário por um motivo curioso. Esses estados americanos possuem muitas usinas nucleares e, na carga baixa, por acharem mais seguro não desligar essas usinas, vendem à HQ parte da energia gerada. Segundo o especialista, a empresa canadense compra energia por US$ 5/MWh na carga leve e, no período de carga pesada, a mesma energia é revendida para esses mesmos estados por US$ 50/MWh. Na realidade, a energia americana foi “guardada” nos reservatórios da HQ, pois nesse momento a HQ diminuía sua geração e, portanto, guardava água. Na conversa que travamos, exaltei a vantagem do sistema de reservatórios e argumentei que, se o vizinho dos Estados Unidos fosse a Noruega, um país totalmente hídrico, ele nada lucraria, porque não dispõe de reservatório. Na Noruega, o reservatório está na neve, não controlável. No caso do Canadá, os reservatórios interligados permitem que se compre energia gerada no EUA, que esta mesma energia seja “guardada” na água, para, então, revendê-la para os próprios americanos por um preço 10 vezes maior. E porque estou me remetendo a este fato? Para mostrar como é estranho ao “mercado” um sistema de reserva de energia do tamanho do que existe no Canadá. A diferença de US$ 45/MWh seria um “aluguel” da reserva? Lá, eles conseguem guardar o equivalente a três meses do seu consumo. No Brasil temos capacidade de armazenar o consumo relativo a seis meses.

Sobre o cenário futuro, creio que existem duas questões graves a considerar: a questão da escassez do petróleo e a questão ambiental. Provavelmente nunca estivemos com tantas incertezas sobre o futuro. (Slide 2) Olhando para o gráfico do Slide 3, podemos verificar o que ocorreu com o consumo de energia nas crises do petróleo. Na horizontal temos o crescimento do PIB mundial e na vertical o uso da energia. Nas crises do petróleo, o mundo melhorou a sua produtividade, pois ele cresce na horizontal (PIB), utilizando menos energia por unidade de produto.

Entretanto, quando essa energia é separada por tipo de uso (Slide 4), verificamos que a eletricidade não tem essa maleabilidade, pois quando cresce a produção de riqueza, junto cresce o consumo de eletricidade.

No slide 5, temos o conhecido estudo do Campbell, da Association for the Study of Peak Oil and Gas, que nos mostra que estamos explorando mais petróleo do que descobrindo jazidas exploráveis. No gráfico que mostra o comportamento dos preços no slide 6 de um estudo da British Petroleum, o que vai ocorrer futuro parece ser uma grande especulação. O sinal de interrogação indica que, hoje, com as dúvidas sobre as reservas mundiais, é difícil se os preços irão se comportar tal como no passado.

Em relação à questão ambiental (slides 8, 9, 10), a pergunta que deveríamos nos fazer é porque não entramos em pânico? O gráfico mostra as mudanças radicais de temperatura da terra ao longo do tempo; o gráfico de baixo mostra o mesmo com os decorrentes da concentração de gás carbônico e com os originados pela emissão de carbono.

As fontes derivadas de combustíveis fósseis, como o petróleo, estão cada vez mais caras e sofrerão crescente resistência ambiental. Não imaginamos o que poderia ser previsto no atual cenário caso ocorresse uma grande mudança tecnológica, ou seja, uma inovação que provocasse uma ruptura capaz de alterar substancialmente o quadro atual.

Apesar de que vivemos um momento de grande incerteza, podemos esperar algumas coisas. Primeiro é que o mundo não deverá ficar sem petróleo, mas é provável que seu preço aumente. (Slide 11)Também é muito provável que haja um outro ajuste na demanda, tal qual nas crises da década de 70, no mundo inteiro.

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Política

Semelhanças e diferenças entre os governos Lula e FHC

Escrito por Imprensa em 22 Maio, 2008

Para Márcio Pochmann, há similitudes nas políticas sociais e econômicas adotadas pelos dois governos, mas diferenças de ênfase e objetivos. “Os programas de transferência de renda ganharam uma dimensão que não estava estabelecida pelo governo Fernando Henrique Cardoso”, exemplifica.

Por Luciana Sergeiro

Publicado em: Agência Carta Maior

Por: Antonio Biondi

Na terceira e última parte de sua entrevista à Carta Maior, o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, analisa algumas políticas econômicas e sociais do governo Lula em comparação às de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Pochmann vê “similitudes” entre as duas gestões, mas rebate com facilidade as críticas que classificam o atual governo como “mais do mesmo” em termos de objetivos e ênfase nas transformações buscadas para o Brasil.

Pochmann fecha a entrevista com uma análise sobre a situação dos EUA, que, no seu entender, viveria hoje um ponto de inflexão em sua hegemonia mundial.

Carta Maior – Muitas, vezes, há críticos que dizem que as tendências da diminuição da pobreza e da desigualdade verificadas no governo Lula já vinham se estabelecendo desde o governo Fernando Henrique e que, portanto, o governo Lula seria somente mais do mesmo. Você concorda com essas avaliações, ou há diferenças marcantes entre as duas adminsitrações nestes pontos?

Pochmann – Nós tivemos experimentos diferenciados, como por exemplo a aposta no crédito, que tem sido um elemento importante na ampliação do consumo dos segmentos de menor renda, dos assalariados, dos aposentados. Isso certamente foi uma novidade. Como também foi a unificação dos programas de transferência de renda. O governo anterior, embora não tivesse o Bolsa Família, possuía um conjunto mais fragmentado de políticas, de forma que, sob o governo Lula, houve a unificação – e não apenas uma unificação que deu racionalidade e maior foco neste tipo de política, como também houve a ampliação do número de beneficiados e elevação da remuneração, de elevação do valor pago.

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A celebração da irrelevância

Escrito por Imprensa em 26 Maio, 2008

Como foi definido recentemente pelo Deputado Ciro Gomes, o fim da CPI dos Cartões Corporativos, não foi nada mais que um capítulo da “novelização da política”, não poderia haver outro fim para a CPI, além de melancólico, onde a comissão não conseguiu sequer estabelecer uma discussão sobre normas de acesso e divulgação dos gastos de servidores com os cartões corporativos.

Por Luciana Sergeiro

Publicado em: CartaCapital

Por: Redação Carta Capital

Não poderia ser outro o fim da CPI dos Cartões Corporativos. Melancólico, patético, enfim. Motivada pelo enésimo furo n’água da parcela beligerante da oposição, associada à porção da mídia adepta da coação como instrumento de poder, a comissão nem sequer conseguiu estabelecer uma discussão sobre normas de acesso e divulgação dos gastos de servidores com os cartões corporativos. Inclusive os de ex e do presidente da República em exercício. Regras que preservassem o mínimo de segurança ao primeiro mandatário e garantissem aos cidadãos o direito de saber como os impostos são gastos nos palácios e gabinetes.

Nunca foi este o objetivo, seja por parte da oposição ou da base governista. Tratou-se de mais um capítulo “novelização da política”, como definiu recentemente à CartaCapital o deputado Ciro Gomes. Nessa novela, cujo enredo gira no mesmo ponto, tentar atingir o âmago do governo, prosperaram o apego à insignificância e a falta de lógica (quem precisa dela nesta altura do debate público brasileiro?). Em páginas e páginas, em horas de transmissão de rádio e tevê, celebrou-se a irrelevância.

Não se iluda, leitor. As últimas cenas de indignação estampadas em editoriais e colunas de opinião são o desfecho da pantomima, o roto e sonolento recurso da mídia em busca de uma saída à francesa para ela mesma, que a livre da constrangedora auto-avaliação. Esquece-se a própria incapacidade de provar a versão alimentada semanas a fio e investe-se contra o combalido e fácil alvo de sempre, o desmoralizado Congresso. Se nada ficou esclarecido, a culpa certamente é do bando que ocupa o Parlamento brasileiro. Fala-se em pizza.

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Internacional

A ópera, a guerra e a ressurreição russa

Escrito por Imprensa em 22 Maio, 2008

A Rússia volta a se erguer e dá claros sinais de que almeja retomar seu lugar como uma potência econômica e militar mundial, começando a amedrontar novamente seus antigos e eternos adversários.

Os setores de armamentos e energia têm sido os propulsores da atual recuperação econômica do país. Vale ressaltar que tais setores estão hoje primordialmente sob controle estatal, pois o ex-presidente russo, Vladimir Putin, realizara em suas duas administrações um processo de nacionalização dos recursos energéticos, assim como refizera a planta industrial bélica do país.

Não precisava tanto para assustar o mundo, pois a Rússia ainda é a detentora do segundo maior arsenal atômico do planeta.

Após o declínio soviético, passados quinze anos, o país mais importante daquela União ressurge recuperado, apresentando altas taxas de crescimento no nível de atividade e que deve se expandir ainda mais nos próximos anos, superando o Produto de importantes economias européias, como a França.

Parece claro que o maior país do planeta em extensão territorial não pretende abdicar de sua relevância estratégica e demonstra isso com nitidez.

O “espírito russo”, já cantado na Ópera Guerra e Paz, em 1946, quando da vitória russa sobre a Alemanha na Segunda Guerra Mundial, ressurge e brada com força a eternidade de seu território, de seu povo, de seu país…

* Por Elizabeth Cardoso, editora e coordenadora de conteúdo

Publicado originalmente no Valor Online (restrito a assinantes)

Por José Luís Fiori*

Relembro porque causou profunda impressão – uma montagem russa da ópera Guerra e Paz, de Serguei Prokofiev, na Bastilha. Era 1998, a União Soviética havia desaparecido e a Rússia estava humilhada e destruída. A ópera Guerra e Paz, estreou no Teatro Maly, em Leningrado , no dia 12 de junho de 1946, pouco depois da invasão e expulsão das tropas alemãs e da vitória russa na Segunda Guerra Mundial, e conta a história da invasão e expulsão das tropas francesas, e da vitória russa, na guerra com Napoleão Bonaparte, em 1812. Na última cena, o povo e os soldados russos cantam juntos, uma peroração apoteótica, proclamando a eternidade do “espírito russo”. Com força, emoção, convencimento – inesquecível. E, de fato, depois da destruição de 1812, a Rússia se reconstruiu e se transformou numa das principais potências européias do século XIX; e, depois de 1945, a União Soviética, voltou a levantar e se transformou na segunda potência militar e econômica do mundo, na segunda metade do século XX. Como já havia acontecido antes, em 1709, depois da invasão e da expulsão das tropas suecas de Carlos XII por Pedro, o Grande, quando a Rússia começa sua fantástica modernização do século XVIII. Mas, em 1998, parecia impossível que isto pudesse acontecer de novo, depois da derrota soviética e da destruição liberal da economia russa. Dez anos depois, entretanto, no momento da posse do seu terceiro presidente republicano, Dmitri Medvedev, a Rússia está de novo de pé, e o “espírito russo” volta a assustar os europeus, e preocupar o mundo. O jornal “Financial Times” publicou recentemente um caderno especial sobre a Rússia onde afirma que “nem Bruxelas, nem Washington, estão sabendo como tratar com a Rússia depois de Vladimir Putin, porque a Rússia está cada vez mais disposta a retomar sua posição no mundo, em particular nos países da antiga União Soviética” (Financial Times, Rússia, Special Report, 18/04/08, p.3).

Liderado pelas empresas estatais do setor de energia e armamentos, o crescimento recente multiplicou seis vezes o produto interno da Rússia

Em 1991, imediatamente depois da dissolução da União Soviética, os Estados Unidos e a União Européia colocaram-se o problema e atribuíram-se a tarefa de “administrar” a desmontagem do “império russo”. Por causa de suas conseqüências econômicas, e por causa do problema geopolítico da Europa Central.

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O DESATINO DA MOEDA ÚNICA NA AMÉRICA DO SUL

Escrito por Leonardo Nunes em 26 Maio, 2008

RIVE GAUCHE

Léo Nunes – Paris – O presidente Lula mencionou, no programa semanal “Café com o Presidente”, a possibilidade da criação de uma moeda única na América do Sul. Segundo Lula, a criação de uma moeda para estes países e a constituição de um Banco Central único seria o passo final para a integração do continente. Entretanto, devemos entender as reais dificuldades de tal empreendimento e os limites de suas possibilidades.

Em primeiro lugar, a instabilidade monetária dos países periféricos é um dado estrutural de sua condição. Esta instabilidade provém principalmente das restrições associadas ao balanço de pagamentos, vinculados, sobretudo, à composição da pauta de exportação vis-à-vis à pauta de importação. No caso destes países, a predominância de produtos primários nas exportações faz com que os termos de troca se deteriorem, ou pelo menos tenham uma maior volatilidade. Em momentos de auge do ciclo, como os que vivemos nos últimos anos, as commodities normalmente presenciam um aumento significativo dos preços. O problema é quando o ciclo reverte.

Além disso, o problema da pauta de exportações é exacerbado num ambiente de liberalização da conta financeira, fazendo com que a taxa de câmbio se torne ainda mais volátil. A volatilidade das principais variáveis monetárias, quais sejam a taxa de câmbio e a taxa de juros, torna hercúlea a tarefa de fazer convergir as principais variáveis macroeconômicas destes países, o que é condição sine qua non para a criação de tal moeda.

Portanto, a criação de uma moeda única apenas se colocaria como possibilidade concreta a partir da superação da condição periférica, no sentido furtadiano do termo, ou seja, através do rompimento com a atual divisão internacional do trabalho. Tal alternativa demandaria um nível de esforço coordenado, que incluíra capacidade de planejamento e vontade política das elites, que dificilmente poderia ser colocado em prática diante das atuais condições objetivas. Por fim, uma discussão de tal envergadura não pode ser tomada em conta isoladamente, mas, ao contrário, deveria levar em conta a questão do Desenvolvimento, sendo este visceralmente ligado à supressão da relação centro-periferia.

Leonardo Nunes: Mestre em Economia pela Unicamp e doutorando em Economia pela Universidade Paris-1 Pantheon-Sorbonne. Correspondente do Dezemprego Zero na capital francesa. Meus Artigos

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