Blog do Desemprego Zero

Os custos da “independência” do Banco Central

Posted by Rodrigo Medeiros em 27 maio, 2008

Rodrigo L. Medeiros *

 

Entre as máximas da finança ortodoxa, seguramente nenhuma é mais anti-social que o fetiche da liquidez, a doutrina que diz ser uma das virtudes positivas das instituições investidoras concentrar seus recursos na posse de valores ‘líquidos’. A finalidade social do investimento bem orientado deveria ser o domínio das forças obscuras do tempo e da ignorância que rodeiam o nosso futuro. Não há evidência clara que a política de investimento socialmente mais vantajosa coincida com a mais lucrativa (KEYNES, 1982, Capítulo 12, V) [I].

 

O Banco Central do Brasil, em seu relatório de mercado, o Boletim Focus, de 23 de maio de 2008, aponta no sentido de déficits nas transações correntes para 2008 e 2009. Além disso, ele aponta também no sentido do viés de alta para a taxa básica de juros, a Selic: 13,50% a.a. para o final de 2008.

Não é preciso muito esforço para se perceber quais os efeitos negativos reais na economia brasileira. Câmbio valorizado acima do diferencial de produtividade do Brasil em relação aos seus principais parceiros comerciais só pode mesmo gerar perda de competitividade e desinvestimento [II]. A elevação dos juros impacta na formação bruta de capital (investimento produtivo), que tem girado abaixo dos 18% do PIB brasileiro. Abaixo, portanto, dos 25% necessários para que se ingresse em um ciclo virtuoso de crescimento sustentado.

Investimentos produtivos são contidos pelo viés de alta dos juros e, conseqüentemente, a precarização das relações de trabalho (desemprego mais subemprego), hoje realidade para 49% da população economicamente ativa brasileira, não é combatida de forma eficaz [III]. O governo do presidente Lula, por sua vez, aposta na nova política industrial para compensar o pesadelo que é a administração da política monetária vigente. Seria melhor se o bom senso prevalecesse.

A conjuntura econômica global vem há tempos apontando no sentido de taxas básicas de juros de um dígito, algumas negativas quando se descontam as respectivas inflações. Não há apenas uma espécie de pressão inflacionária, a de demanda. Se é que a crise global de alimentos pode ser imputada integralmente a “pressões de demanda”. Reconhece-se por experiência histórica que não é função exclusiva de um banco central o controle dos processos inflacionários. O Estado precisa acionar mecanismos adequados de regulação de mercados imperfeitos. Principalmente quando o poder de mercado se contrapuser ao bem-estar coletivo da nação.

No Brasil, já se constatou historicamente que uma combinação perversa entre política monetária ortodoxa e capacidade produtiva ociosa pode causar pressões inflacionárias estruturais [IV]. Essa questão agrava-se na medida em que a economia brasileira encontra-se mais exposta aos choques cíclicos do sistema economia-mundo, por ter liberalizado sua conta de capitais na década de 1990, e necessitar galgar maior competitividade sistêmica.

Além de travar o crescimento da economia brasileira, a política monetária vigente reduz a competitividade sistêmica do país, tanto por dificultar investimentos em infra-estrutura como por encarecer a produção nacional pelas vias da valorização cambial. Certamente há quem se beneficie de tal política de juros altos. Dificilmente se pode dizer que são as pessoas cujas vidas dependem do trabalho e da produção de bens e serviços.

* D.Sc. pela COPPE/UFRJ, membro da Cátedra e Rede UNESCO-UNU de Economia Global e Desenvolvimento Sustentável e da rede Economists for Full Employment do Levy Economics Institute of Bard College (NY).

Notas

[I] KEYNES, J. M. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Atlas, 1982.

[II] O termo “desinvestimento” utilizado está empregado no sentido atribuído por Keynes. Sobre competitividade, diferencial de produtividade e câmbio cf. CHANG. H. Chutando a escada. São Paulo: UNESP, 2004.

[III] Cf. CEPAL – Comisión Económica para América Latina y el Caribe. Balance preliminar de las economías de América Latina y el Caribe. Santiago: CEPAL, dic.2007.

[IV] RANGEL, I. Obras reunidas. 2v. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.

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3 Respostas to “Os custos da “independência” do Banco Central”

  1. Heldo Siqueira said

    Rodrigo,

    Talvez essa não seja a melhor citação que foi apresentada no blog, mas vou fazê-la assim mesmo.
    Me lembro o Schopenhauer em “o livre arbítrio”. Ele argumentava que caso existisse uma natureza humana (ou seja, se cada ser humano respondesse sempre ao mesmo estímulo da mesma forma), dar a liberdade para um ser humano agir da maneira que tivesse vontade eliminava seu livre arbítrio. Afinal, suas atitudes não seriam mais do que extensões (reações) dos estímulos naturais. Assim, ao invés de o indivíduo estar controlando suas atitudes, a natureza as estaria controlando (através dos estímulos que proporciona).

    Transpondo para a administração da política monetária, não acho que exista uma “natureza” de política monetária neutra. Simplesmente pq a política não é neutra! E tentar fazer a política monetária neutra coloca o BC à mercê da “natureza” (o mercado). Ou seja, se o Governo não fizer política monetária, os bancos farão! A questão é que o Governo foi eleito pelo povo para fazer política monetária enquanto os bancos não!

    Nenhum BC do mundo pergunta às instituições bancárias qual a previsão delas sobre as variáveis macroeconômicas. Nenhum BC do mundo faz críticas aos outros instrumentos de política econômica.

    Seguindo esses princípios de “neutralidade”, o BC segue fazendo trapalhadas, destacaria:

    – o estancamento do “carry-over” (para usar uma palavra da moda) do crescimento de 2005 aumentando os juros no final do ano para “perseguir” uma inflação bem abaixo da meta em 2006 (3,6%).

    – essa previsão RIDÍCULA sobre o tamanho do déficit em conta corrente que estamos observando graças ao câmbio absurdamente valorizado. Em que o previsto para o ano se realizou em 4 meses

    – não conseguir distinguir um choque internacional de preços com inflação de demanda.

    Será que essas previsões são neutras ou há alguns interesses ligados à elas?!

    Não gosto muito de argumentar por analogias, mas nesse caso achei pertinente.

    Abraços

  2. Heldo

    Não há discordância entre nós nos pontos levantados por você. Concordo que não há política monetária neutra. Você tocou num ponto que considero muito importante: a questão da natureza. Keynes foi muito crítico ao “apelo à natureza” que alguns teóricos fazem para sustentar suas argumentações.

    Somos humanos e dificilmente nos encaixamos nos extremos dos pólos paixão e racionalidade. Existe um variado gradiente de comportamentos entre esses dois extremos. Keynes também abordou essa questão.

    Manoel Bomfim, por exemplo, em ‘América Latina: males de origem’, escreveu sobre a tendência ao parasitismo de setores das elites latino-americanas. A preferência pela liquidez é uma armadilha…

    Um abraço,

    Rodrigo L. Medeiros

  3. […] SEMANAL DO B… em SWAP CAMBIAL REVERSO: mais um …Rodrigo Loureiro Med… em Os custos da “independê…Heldo Siqueira em Os custos da “independê…Irapuan em Brasil pode se transformar em […]

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