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Os vários desafios das pequenas e médias empresas latino-americanas

Posted by NOSSOS AUTORES em 29 maio, 2008

Os vários desafios das pequenas e médias empresas latino-americanas

Fonte: Wharton Universia

As pequenas e médias empresas (PMEs) respondem por cerca de 90% a 98% das unidades produtivas na América Latina, gerando cerca de 63% do emprego disponível, além de participarem com cerca de 35% a 40% do produto total da região, de acordo com os mais recentes estudos de organismos como o Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal).

As PMEs estão espalhadas por todos os setores, do comércio à indústria, no segmento de serviços, saúde e no sistema financeiro. De acordo com estatísticas do Banco Mundial, elas constituem a fibra-mestra do tecido social de todo o continente, já que se encontram em grandes centros urbanos, cidades de porte intermediário, pequenas populações e nas mais remotas e distantes regiões rurais – uma vez que, no campo,  essas empresas estão presentes nas mais diversas atividades da produção agropecuária.

Contudo, as PMEs padecem de diversos problemas que lhes roubam eficiência, produtividade e competitividade. “São tantas suas dificuldades quanto o número de empresas existentes, e embora não haja governo que não as incorpore às suas políticas sociais – através de leis, decretos e resoluções que possam beneficiá-las – seu atraso em relação à grande empresa é significativo”, afirma Jorge Yarce Maya, presidente do Instituto Latino-americano de Liderança, consultor internacional e professor universitário.

De acordo com o instituto, que congrega líderes da América Latina e cuja matriz está localizada em Bogotá, entre os transtornos que afetam a pequena e média empresa da região destaca-se a informalidade. Segundo o ex-reitor da faculdade de administração de empresas da Universidade dos Andes, na Colômbia, e atual consultor de empresas, Jorge Hernán Cárdenas, esse fenômeno afeta 50% das micro (com dois ou três empregados), pequenas (de cinco até 15 empregados) e médias empresas (até 200 empregados).

É o caso da Colômbia, onde há programas estatísticos amplos e detalhados sobre a informalidade. Um estudo da Fundação para o Desenvolvimento e Educação Superior (Fedesarrollo) apurou que o fenômeno chega a 55%. “Contudo, esse percentual pode ser maior, já que nossas pesquisas acusam 63%”, afirma o presidente da Associação das Micro, Pequenas e Médias Indústrias (Acopi), um setor que gera 63% do emprego no país em seus 32 departamentos e 1.002 municípios.

O problema da informalidade não está apenas na ausência de um registro comercial para que essas empresas possam ser acreditadas junto aos bancos, de modo que possam obter empréstimos, há também falta de apoio dos organismos institucionais e inexistência de acesso às agências de cooperação internacional, gerando emprego de má qualidade e fechando-lhes as portas aos mercados externos, observa o diretor.

Hugo Betancur, diretor da Visión, empresa de consultoria, assessoria e formação empresarial da Universidade de Sabana, observa que o problema das pequenas e médias empresas está associado à falta de competência em gestão empresarial de suas cúpulas diretoras. Um fator determinante e que contribui para a informalidade é que muitas dessas unidades produtivas nascem da necessidade de muitos empreendedores, e não de uma decisão previamente pensada, disse.

Na América Latina impera a lei do garrote e da cenoura. Em outras palavras, ameaça-se com o fechamento os estabelecimentos que não cumprem com suas obrigações fiscais na data certa, mas de acordo com Julián Dominguez, presidente da Câmara de Comércio de Cali, cidade industrial da Colômbia, é preciso inculcar a idéia de que estar legalizado vale a pena, e que cumpridos os requisitos exigidos, as empresas têm a possibilidade de crescer, de se tornarem produtivas e abertas à competitividade.

Cristina Rico Carroll, professora da Universidade do Norte, em Barranquilla (Colômbia), especialista na seleção de executivos, observa que, felizmente, nos últimos dez anos, os diretores das pequenas e médias empresas compreenderam que seu negócio não pode ser administrado eficazmente sem atender ao pé da letra as normas legais. “Observa-se agora que presidentes, vice-presidentes e diretores vão à universidade para se preparar e se capacitar em competências gerenciais e administrativas”, diz. E acrescenta: na universidade, aprendem que é importante formalizar seus negócios.

Atraso tecnológico

As pequenas e médias empresas investem pouco em tecnologia e, quando o fazem, muitas vezes adquirem equipamentos, maquinário e software inadequados. E por que isso? “Porque para se modernizar, primeiro é preciso analisar meticulosamente as implicações da atividade principal do negócio e só depois disso pensar em tecnologia”, observa Juan Carlos López, executivo da consultoria multinacional de tecnologia e negócios Neoris.

Para Germán Andrés Camacho, coordenador do programa Zeiky, patrocinado pelo Centro de Informação e de Assessoria em Comércio Exterior da Universidade Sergio Arboleda, muitos diretores de PMEs simplesmente negligenciam o papel das tecnologias e das comunicações, um componente imprescindível da competitividade no mundo dos negócios contemporâneos. “O gerente da pequena e média empresa na América Latina age, muitas vezes, de modo empírico, e não tem o hábito de se capacitar e se atualizar permanentemente, o que é uma exigência da sociedade da informação”, observa Camacho, especialista em finanças e comércio exterior e com MBA no assunto.

Um estudo recente da Fundação para o Desenvolvimento Sustentável da América Latina (Fundes) revela cifras desoladoras: as pequenas e médias empresas, principalmente as de menor porte, investem apenas 2% de seu orçamento em tecnologia. “É evidente que uma empresa que não se atualiza tecnologicamente está condenada a um atraso de competitividade e de produtividade”, adverte Camacho.

Para o ex-reitor de administração de empresas da prestigiosa Universidade dos Andes, Jorge Hernán Cárdenas, quando um empresário pensa em destinar parte do seu orçamento para tecnologia, trata o assunto como se fosse gasto, e não investimento. “Ele compra o produto ou serviço mais barato ou simplesmente o menos adequado para o objetivo do seu negócio. Segue-se então um mau resultado ou, no mínimo, um resultado insuficiente”, observa o especialista.

Capital humano

Agora que o paradigma é a especialização, formação, preparação e atualização permanente do capital humano – denominado em muitas empresas de cliente interno – e a seleção com base em competências, as pequenas e médias empresas se acham deslocadas, com a agravante de que esse é um defeito generalizado na América Latina, observam os especialistas.

Pedro Nino, diretor do Inalde, escola de negócios da Universidade de la Sabana, em Bogotá, assinala que o elemento mais importante para as empresas não são os números, tampouco sua conta de resultados, ou perdas e ganhos (P&G), e sim seu capital humano. É o que pensa também Juan Carlos Echeverry, professor da Universidade dos Andes: “Na empresa de pequeno e médio porte faltam planos de carreira (não em todas, evidentemente), não há processos de seleção adequados que determinem as habilidades, talentos, aptidões e conhecimentos dos aspirantes.” Echeverry defendeu na Colômbia a Lei das Micro, Pequenas e Médias Empresas, que conferiu ordem constitucional aos programas de apoio ao setor.

Na maior parte das empresas latino-americanas de menor porte, observa Andrés Escobar, economista da Universidade dos Andes com especialização no exterior em gerência pública, a forma mais evidente de conseguir emprego é por meio de recomendações.

Um obstáculo chamado mercado

Em um fórum recente organizado simultaneamente em Bogotá e Caracas pela Corporação Andina de Fomento (CAF), uma entidade que reorientou sua estratégia de desenvolvimento direcionando-a para a população mais vulnerável, chegou-se ao consenso de que as pequenas e médias empresas sabem produzir, mas não sabem vender. Para Ângela Enríquez, especialista em mercado e professora de universidades como a Sergio Arboleda, com sede em Bogotá, “essas empresas têm dificuldade em adotar uma estratégia de marketing cujo negócio principal seja o cliente, a segmentação dos mercados, a visibilização de novas oportunidades de negócios e a guinada em direção a novas unidades”.

Geralmente, acrescenta, o gerente de um dessas empresas considera o marketing como um gasto, e não como investimento e, portanto, sua base de clientes dificilmente cresce, tampouco se criam novas ofertas de bens e serviços, embora haja um grande potencial para isso no mercado.

Em suma, observa Martha Lucia Restrepo, professora da Universidade do Rosário, “o cliente é que torna o negócio rentável, não o produto. Isto significa que as empresas dependem dos mercados e da forma como eles reagem diante de suas propostas de produtos ou serviços”. E acrescenta: “Com isso, não se quer afirmar e tampouco negar que a eficiência no processo de produção, a gestão de custos,  do canal de venas utilizado e demais componentes do preços não sejam importantes. No entanto, uma vez que se tenha um produto competitivo, o resto é com o cliente”.

Tudo isso é válido para qualquer empresa, seja ela de bens ou de serviços, grande ou pequena. A grande diferença é que as pequenas e médias empresas não aplicam nada disso, observa Restreo.

Restrição de crédito

Não haverá negócio possível se não houver a possibilidade de acesso ao crédito, porém, para os especialistas consultados, esse é um bem escasso nas PMEs por vários motivos: informalidade, desordem administrativa que caracteriza algumas empresas de pequeno e médio porte, ausência de liderança, de garantias reais  e falta de informação.

De acordo com o presidente do Bancolombia, Jorge Londoño, diretor da maior instituição financeira da Colômbia, com filiais na América Central, “a primeira condição que toda microempresa deve atender consiste em tornar transparente a administração das informações, além de manter uma contabilidade em dia”. Para Londoño, é igualmente válido buscar assessoria para um diagnóstico da situação da empresa, podendo-se também introduzir mecanismos que melhorem sua estrutura financeira.

Embora nos países da Comunidade Andina de Nações (CAN), formada atualmente por Peru, Bolívia, Equador e Colômbia  (a Venezuela se retirou da agremiação), as diferentes associações de pequenas e médias empresas continuem trabalhando para a formação de um Fundo Regional de Garantias, o acesso ao crédito continua limitado. Apesar de os bancos terem se aberto ao segmento e o considerarem como um bom negócio, a classificação de risco das PMEs faz com que os créditos sejam ‘castigados’ por taxas de juros mais elevadas e prazos de amortização menores, observa o presidente da associação Colombiana das Micro, Médias e Pequenas Empresas, Norman Correa.

A razão é simples: como os níveis de risco são maiores, os bancos cobram mais e reduzem o prazo de financiamento, o que em muitas ocasiões exclui as PMEs do mercado financeiro tradicional, explica Correa.

E o futuro?

Embora o diagnóstico anterior pareça pouco alvissareiro para um setor que participa tanto da geração de emprego quanto da produção, foram tomadas medidas por parte do governo, das agências internacionais de cooperação e organismos multilaterais no sentido de promover, impulsionar e apoiar as pequenas e médias empresas. Trata-se, porém, de um trabalho de longo prazo, conforme observou recentemente o presidente do BID, Luis Alberto Moreno, em discurso de apresentação da nova política de microfinanciamento.

As pequenas e médias empresas, de acordo com o BID, devem trabalhar muito com o tema da inovação – Chile, Brasil e México pioneiros na região; com aspectos como a associatividade, para que possam competir no plano internacional; além de criar clusters que viabilizem o aumento da produtividade e da competitividade.

O setor, de acordo com o Banco Mundial, tem pontos positivos como a possibilidade de se acomodar de forma mais flexível às mudanças exigidas pelo mundo contemporâneo dos negócios. Contudo, diz Ben Schneider, especialista em desenvolvimento, promoção e divulgação do conceito de terceirização, é preciso também subcontratar, uma vez que existe na região uma cultura empresarial do “faz tudo”.

Do ponto de vista institucional, há em cada país da região muitos organismos que apóiam as pequenas e médias empresas, e que vão do Sebrae, no Brasil, ao Corfo, no Chile, Formipyme e Expopyme, na Colômbia, a Secretaria das Pequenas e Médias Empresas e de Desenvolvimento Regional, na Argentina, bem como a Secretaria para as Pequenas e Médias empresas do México e a Conapyme, em Honduras.

O próprio BID delegou ao Fundo Multilateral de Investimentos (Fomin) a responsabilidade de gerir diferentes programas – financiamento, tecnologia, comércio, capacitação, inovação e modernização, entre outros – além de apoiar o setor. O mesmo acontece com o Banco Mundial, a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi), a Corporação Andina de Fomento (CAF), a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que são o braço direito das PMEs da região.

O objetivo, de acordo com o presidente do BID, é que as PMEs se insiram no processo de globalização e passem de empresas de subsistência a empresas propriamente ditas, que é o que elas são de fato, com políticas de governança corporativa, participando ativamente das estratégias de responsabilidade social corporativa (RSC), unindo-se nesse sentido ao Pacto Global (de RSC), proposto em 1999 pelo então secretário geral da ONU, Kofi Annan.

Publicado em: 28/05/2008. 

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