Blog do Desemprego Zero

Peru guarda excrementos de aves à medida que cresce de novo a demanda

Posted by Beatriz Diniz em 30 maio, 2008

Por Simon Romero

O boom mundial dos preços das commodities chegou a este ponto: até mesmo o guano, o excremento de aves que foi motivo de uma disputa imperialista em alto-mar no século 19, apresenta forte demanda novamente.

O aumento dos preços de fertilizantes sintéticos e alimentos orgânicos estão deslocando a atenção para o guano, um fertilizante orgânico antes encontrado em abundância nesta ilha e mais 20 outras além da costa do Peru, onde um clima excepcionalmente seco preserva o excremento de aves marinhas como o cormorão e o atobá peruano.

Veja fotos na recolha de guano

Nas mesmas ilhas onde milhares de presos, desertores do exército e trabalhadores chineses morreram coletando guano há um século e meio, equipes de trabalhadores de língua quechua das montanhas agora raspam o excremento do solo duro e o colocam em barcaças com destino ao continente.

“Nós estamos recuperando parte do último guano que resta no Peru”, disse Victor Ropon, 66 anos, um supervisor da província de Ancash cuja pele curtida reflete os anos que passou trabalhando nas ilhas de guano, desde que tinha 17 anos.

“Deve restar uns 10 anos de oferta, talvez 20, e então estará completamente esgotado”, disse Ropon, se referindo aos temores de que a população de aves marinhas deverá decrescer acentuadamente nos próximos anos. É um pequeno milagre que algum guano ainda esteja disponível aqui hoje, refletindo um esforço de mais de um século saudado por biólogos como um raro exemplo de exploração sustentável de um recurso antes tão cobiçado, a ponto dos Estados Unidos terem autorizado seus cidadãos a se apossarem de ilhas ou ilhas de corais onde o guano era encontrado.

Enquanto transcorre o debate sobre se a produção global de petróleo atingiu seu pico, pode existir uma parábola na história do guano, com sua disputa marítima, o desenvolvimento de alternativas sintéticas na Europa e um esforço desesperado aqui para impedir que os depósitos fossem esgotados.

“Antes de haver o petróleo, havia o guano, então é claro que travamos guerras por ele”, disse Pablo Arriola, diretor da Proabonos, a empresa estatal que controla a produção de guano, se referindo aos conflitos como a Guerra das Ilhas Chincha, na qual o Peru impediu a Espanha de reassumir o controle sobre as ilhas de guano. “Guano é um empreendimento altamente desejoso.”

O guano também é um empreendimento inegavelmente árduo do ponto de vista dos trabalhadores que migram para as ilhas para colher o excremento a cada ano. Em cenas que lembram as minas de ouro a céu aberto no continente, os trabalhadores se levantam antes do amanhecer para raspar o guano endurecido com pás e pequenas enxadas.

Muitos trabalham descalços, com seus pés e pernas cobertos com guano quando o turno deles termina no início da tarde. Alguns usam lenços sobre suas bocas e narinas para evitar respirar o pó do guano, que, infelizmente, é quase inodoro fora o leve cheiro de amônia.

“Esta não é uma vida fácil, mas é a que eu escolhi”, disse Bruno Sulca, 62 anos, que supervisiona o carregamento de sacos de guano nas barcas na Isla Guanape, além da costa norte do Peru. Sulca e outros trabalhadores ganham cerca de US$ 600 por mês, mais de três vezes o que os trabalhadores braçais ganham nas montanhas.

O comércio de guano do Peru persiste de forma quixotesca após quase ser eliminado pela exploração excessiva. O excremento provavelmente nunca será foco de um boom tão intenso quanto o do século 19, quando os depósitos tinham 45 metros de altura e a receita das exportações representava grande parte do orçamento nacional.

O guano na maioria das ilhas, incluindo a Isla de Asia, ao sul da capital, Lima, agora chega a menos de 30 centímetros de altura. Mas o guano que permanece aqui é cobiçado quando visto no contexto do frenesi no Peru e no exterior em torno de fertilizantes sintéticos, como a uréia, que dobraram de preço, chegando a mais de US$ 600 a tonelada no ano passado.

O guano peruano é vendido por cerca de US$ 250 a tonelada, chegando a US$ 500 a tonelada quando exportado para a França, Israel e Estados Unidos. Apesar do guano ser menos eficiente do que a uréia na liberação de nitratos no solo, seus status como fertilizante orgânico tem provocado o aumento da demanda, o transformando em um fertilizante de nicho de mercado procurado em todo o mundo.

“O guano tem a vantagem de ser livre de produtos químicos”, disse Enrique Balmaceda, que cultiva mangas orgânicas em Piura, uma província no norte do Peru. “O problema é que não há o suficiente dele para atender a demanda, com as novas plantações de bananas orgânicas competindo pelo que está disponível.”

Isto explica por que o Peru é tão cuidadoso a respeito da preservação do guano restante, um esforço que teve início há um século, com a criação da empresa de Administração do Guano, quando o Peru nacionalizou as ilhas, algumas das quais controladas pelos britânicos, para impedir a extinção da indústria.

De lá para cá, o governo do Peru restringiu a coleta de guano para cerca de duas ilhas por ano, permitindo o acúmulo dos excrementos. Os trabalhadores alisam os montes e constroem muros para reter o guano. Os cientistas até mesmo introduziram lagartos para caçar os carrapatos que infestavam as aves marítimas.

Os administradores do guano até mesmo posicionam guardas armados em cada ilha para afastar as ameaças aos pássaros, que produzem 12 mil a 15 mil toneladas de guano por ano.

“Os pescadores são os responsáveis pelos maiores prejuízos aqui”, disse Romulo Ybarra, 40 anos, um dos dois guardas posicionados na Isla de Asia, que caso contrário não teria habitantes regulares. (A ilha tem uma cabine minúscula chamada Casa del Chino, uma referência ao ancestral asiático do ex-presidente Alberto K. Fujimori, que costumava vir aqui para relaxar na solidão.)

“Quando os pescadores se aproximam da ilha, seus motores afugentam os cormorões”, disse Ybarra. “E no mar, os barcos pesqueiros pescam as anchovas, algo que não podemos controlar.”

A anchova, um peixe de 15 centímetros, é o principal alimento das aves marinhas que deixam seus excrementos nestas ilhas nas quais não chove. O maior temor dos coletores de guano do Peru é que a pesca comercial esgote o estoque delas, que é cada vez mais procurada como ração para aves e outros animais à medida que aumenta a produção de carne na Ásia.

Apesar da população de aves ter aumentado de 3,2 milhões para 4 milhões nos últimos dois anos, este número ainda é minúsculo em comparação às 60 milhões de aves no auge da primeira corrida pelo guano. Diante do encolhimento da população de anchovas, as autoridades da Proabonos estão considerando suspender a exportação de guano para assegurar sua oferta ao mercado doméstico.

Uriel de la Torre, um biólogo especializado na conservação do cormorão e de outras aves marinhas, disse que a menos que alguma medida seja adotada para impedir a pesca excessiva, tanto as anchovas quanto as aves marinhas daqui poderão desaparecer até 2030.

“Seria um final inglório para algo que sobreviveu a guerras e outras coisas estúpidas de autoria do homem”, disse De la Torre. “Mas este é o cenário que estamos enfrentando: o fim do guano.”

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