Blog do Desemprego Zero

Quem faz as expectativas?

Posted by NOSSOS AUTORES em 31 maio, 2008

Delfim Netto

Fonte: CartaCapital

Um jovem e brilhante economista, William Poole, publicou em 1970 um artigo que hoje podemos classificar como seminal, pelas conseqüências acadêmicas e práticas que provocou. Poole viveu o “monetarismo” acadêmico. Terminou a carreira no mais alto posto de policy maker: a presidência do Federal Reserve Bank of St. Louis, da qual se despediu em março de 2008. Em termos muito simples, as conclusões de Poole mostraram que o uso da base monetária ou, alternativamente, da taxa de juro para manter a economia crescendo sem inflação em torno do PIB objetivado depende da natureza dos choques no mercado de bens e no mercado monetário, o que talvez explique as dúvidas que até hoje assaltam os bancos centrais.

Publicou, ao deixar o cargo, uma reflexão que vale a pena ler. Ela começa assim: “Muito do meu pensamento nos últimos dez anos como presidente do FRB of St. Louis destinou-se à política monetária. De um lado, à estratégia (os grandes objetivos: estabilidade dos preços e crescimento econômico real) e, de outro, à tática (as ações). Especificamente, concentrei-me em entender como as ações se ajustam à estratégia”.

Antes de prosseguir, é bom registrar que uma pesquisa (não “científica”), feita em fevereiro deste ano pelo St. Louis com 382 economistas, se concentrava em uma pergunta: “Qual deve ser o objetivo número 1 da política monetária?” A questão produziu as seguintes respostas: estabilidade dos preços (39%), máximo emprego (33%), taxa de juro real de longo prazo moderada (7%), estabilidade do sistema financeiro (15%) e taxa de câmbio valorizada (6%). Um terço dos economistas tem como objetivo número 1 ou a estabilidade dos preços ou o máximo emprego (isto é, o maior crescimento real).

Poole, atendendo ao mandato legislativo que controla o Fed, queria simultaneamente os dois, o que aparentemente colide com a proposição lógica de que, com um único instrumento (a taxa de juro), não é possível atingir dois objetivos relativamente independentes. Qual é, então, o outro instrumento? Mansamente, ele nos diz: “Primeiro, o Banco Central não deve agir na base do capricho. Segundo, para que atinjam bons resultados, os agentes privados devem não apenas entender a política monetária, mas precisam formar razoáveis expectativas sobre o futuro das ações do banco”.

Continua Poole: “Não havia nada na literatura que mostrasse como se formam as expectativas”. E logo ficou claro “que eu deveria tornar-me parte do processo de tentar estabelecer a expectativa correta”. Isso implicitamente sugere que o outro instrumento (além da taxa de juro) é a manipulação das expectativas. O ponto importante é que, no final de sua experiência para criá-las, sua conclusão é de que “a indicação antecipada dos futuros movimentos do Fomc nos seus comunicados é inconveniente. Às vezes, a melhor coisa a fazer é o Fed ficar de fora”. Quando a ação for necessária, “o mercado, a imprensa e o público em geral têm de entender que o Fomc fará o movimento de acordo com seus objetivos e não como um ato caprichoso”. A experiência de Poole explicita o minueto do qual ele participou e que nem sempre deu bom resultado.

Assiste-se no Brasil o mesmo “pezinho para lá, pezinho para cá” entre o Banco Central e o sistema financeiro (mediado pelo Boletim Focus), para justificar ações às vezes caprichosas. Não resisto à tentação de transcrever, a esse respeito, frases de um artigo absolutamente antológico publicado pelo competente e independente analista Luiz Sérgio Guimarães na sua coluna no jornal Valor Econômico, em 8 de abril. Ele escreveu: “Um reforço poderoso ao movimento já inevitável de aperto da política monetária foi dado ontem pelo Boletim Focus. Trata-se de um movimento autóctone, sem ingerência externa, de retroalimentação das condições que tornam inadiável a elevação da taxa de juros: o Banco Central detecta antes de todo o mundo a germinação de um ameaçador vórtice inflacionário, depois que o mercado futuro de juros da BM&F – palco principal das atuações dos dinâmicos tesoureiros dos bancos – ajusta para cima as projeções de CDI”.

E continua: “Uma curva futura de juros positivamente inclinada pelas advertências do BC tem impacto no setor mais lento do mercado: os economistas de instituições cujas previsões são colhidas pelo Focus; este chancela e legitima intelectualmente o que o DI futuro forçou operacionalmente, sob abrigo do BC. As várias partes do mercado – BC, tesoureiro e economistas – comportam-se, para salvar as aparências, como se um nada tivesse a ver com o outro”. Não seria melhor ficar de fora do minueto, como aconselhou Poole depois de dez anos de experiência?

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