Blog do Desemprego Zero

Reação ao Estímulo

Posted by Beatriz Diniz em 31 maio, 2008

Em entrevista à Carta Capital, Carmen Junqueira, antropóloga e professora da PUC/SP, estuda populações indígenas há 40 anos. Em resposta a questão sobre o ambiente de diálogo entre os indígenas e a sociedade a respeito da hidrelétricas no Xingu, Carmem declarou que a contradição não é entre indígenas e não indígenas. É entre duas formas de distribuir a riqueza do País. É muito difícil dialogar com o desenvolvimentismo a qualquer custo.

*Por Katia Alves

Publicado originalmente na Carta Capital

O sangue que escorreu do braço do engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende, ferido por indígenas na terça-feira 20, turvou novamente o diálogo com os interessados na construção de hidrelétricas no rio Xingu. Rezende foi atingido após discursar a favor da usina de Belo Monte a uma platéia de ribeirinhos, ambientalistas e indígenas que participavam do Encontro Xingu Vivo para Sempre, em Altamira (PA). No dia seguinte, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar a agressão.

A idéia das usinas é antiga e nunca foi aceita pelos indígenas. Em 1989, num debate sobre a mesma obra (então chamada de Kararaô), a índia Túria, da etnia caiapó, hostilizou e encostou um facão no rosto do presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes. O episódio repercutiu Brasil afora e o Banco Mundial desistiu de financiar a obra.Hoje, a usina de Belo Monte é um dos projetos prioritários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, focado em suprir a carência energética brasileira. Como ficou claro em Altamira, há muita animosidade. Em nota, a comissão organizadora do encontro lamentou a agressão, que “não representa o espírito democrático de diálogo”. A antropóloga e professora da PUC/SP, Carmen Junqueira, estuda populações indígenas há 40 anos e falou à CartaCapital.

CartaCapital: Um debate terminar em agressão física é sinal de incapacidade dos índios para se defender com palavras?  

Carmen Junqueira: Na história indígena, não há registro de ataques que não sejam para se defender. Eles estão se defendendo de uma ameaça ao seu hábitat. Não sabemos o que foi dito, o que foi questionado e como foi respondido. O índio reage quando estimulado.

CC: A perspectiva de hidrelétricas no Xingu não é nova. Por que não se criou um ambiente de diálogo entre os indígenas e a sociedade?

CJ: A contradição não é entre indígenas e não indígenas. É entre duas formas de distribuir a riqueza do País. É muito difícil dialogar com o desenvolvimentismo a qualquer custo. Há uma enormidade de brasileiros, não apenas indígenas, preteridos nesse processo.

CC: Quem deve ser punido pela violência contra o engenheiro?  

CJ: Houve uma agressão que não se justifica do ponto de vista humano. A organização falhou, pois  em um evento tenso como esse não poderia haver armas. Os caiapó são enfezados, são muito inteligentes, entendem bem o português, conhecem madeireiros e toda a malandragem do homem branco. Não devia ser permitido que entrassem com facões.

CC: É possível existir um debate razoável?

CJ: Índio não é criança. É preciso um ambiente em que verdadeiramente exista negociação, e isso não está acontecendo. Conheço esses engenheiros há anos. Eles não movem um milímetro suas intenções, enquanto os índios são constantemente iludidos.

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